MÍSTICA E REVOLUÇÃO

 

Espiritualidade, Poesia e Ensaio

para um Novo Milénio

 

(Versão portuguesa, com revisão do

Padre Mário de Oliveira)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

rui manuel grácio das neves

lisboa

janeiro’99

 

À minha mãe Rosalina,

ao meu pai Rui,

e ao meu irmão Ricardo.

Procuramos,

à nossa maneira,

um Mundo Diferente.

A APARÊNCIA DESTE MUNDO PASSA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

PRÓLOGO.......................................................................................................... 5

 

I. POESIA............................................................................................................ 9

 

1.  SINFONIA..................................................................................................... 10

2.  O FÍSICO E A INQUISIÇÃO........................................................................ 11

3.  DO ASTRÓNOMO OU DO RELÓGIO CÓSMICO..................................... 13

4.  MATÉRIA=ENERGIA..................................................................................  15

5.  O FILÓSOFO.................................................................................................  17

6.  DIREITO AO DESEJO..................................................................................  19

7.  TRANSMUTAÇÃO DE VALORES.............................................................  21

8.  O SOCIALISTA.............................................................................................  23

9.  REVOLUÇÃO PERMANENTE....................................................................  25

10.MANIFESTO ANARQUISTA.......................................................................  26

11.O LUSITANO REBELDE..............................................................................  29

12.GENERAL DE HOMENS (E MULHERES) LIVRES...................................  30

13.AO CHÉ, UBÍQUO E OMNI-PRESENTE.....................................................  32

14.O EVANGELHO SEGUNDO SUB-MARCOS..............................................  33

15.O PROFETA DA GALILEIA..........................................................................  34

16.MIRIAM...........................................................................................................  36

17.FRANCESCO...................................................................................................  37

18.IL SANTO.........................................................................................................  39

19.DOMINGOS, O PREGADOR...........................................................................  40

20.TOMÁS DE AQUINO: EPITÁFIO POÉTICO.................................................  42

21.O FRADE UTÓPICO.........................................................................................  44

22.O FRADE POLÍTICO........................................................................................  46

23.A CONTRA-CORRENTE..................................................................................  48

24.TITO DE ALENCAR.........................................................................................  50

25.CARLOS MORALES.........................................................................................  51

26.O MESTRE ECKHART......................................................................................  52

27.O MÍSTICO (QUE NÓS TOD@S SOMOS) .....................................................  53

28.O TEÓLOGO CONTEXTUAL...........................................................................  55

29.ROMERO DA AMÉRICA, PASTOR E MÁRTIR.............................................  56

30.TOD@S NÓS SOMOS HEREGES.....................................................................  58

31.A OUTRA MARGEM.........................................................................................  60

32.SABEDORIA TAOÍSTA.....................................................................................  62

33.O HUMANISTA CHINÊS...................................................................................  63

34.O ÁRABE AUTO-DIDACTA..............................................................................  65

35.O APÓSTOLO HINDÚ........................................................................................  67

36.UM QUILOMBO CHAMADO LIBERDADE....................................................  69

37.O MÁRTIR NEGRO............................................................................................  70

38.INDÍGENAS REBELDES...................................................................................  71

39.PACHAMAMA....................................................................................................  73

ADDENDA .............................................................................................................  75

 

ANÓNIMOS ...........................................................................................................  76

 

40.ANÓNIMA MULHER........................................................................................  77

41.TABÚ..................................................................................................................  79

 

TRILOGIA GERACIONAL (DEDICATÓRIAS)...................................................  81

 

42. ANÓNIMA ANCIANIDADE............................................................................  82

43. ANÓNIMA JUVENTUDE.................................................................................  83

44. ANÓNIMA INFÂNCIA.....................................................................................  84

 

II. ENSAIO...............................................................................................................  85

 

1.      MÍSTICA E REVOLUÇÃO: NÃO HÁ FRONTEIRAS!

(INTRODUÇÃO GERAL).......................................................................................  86

2. REVOLUÇÃO=VIOLÊNCIA?............................................................................  90

3. MÍSTICA, CIÊNCIA E ARTE ( PER MODUM DEFINITIONIS).....................  96

4. MÍSTICA COMO VIVÊNCIA.............................................................................  99

5. AS MICRO-UTOPIAS.........................................................................................  101

6. SOBRE A FILOSOFIA NEO-ANARQUISTA (MINI-MANIFESTO)...............  106

7. DO MACRO-ECUMENISMO. MÍSTICA PARA UM NOVO MILÉNIO.........  113

 

NOTAS PESSOAIS .................................................................................................  118

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“ Quando se tiver cortado a última árvore,

quando se tiver envenenado o último rio,

quando se tiver pescado o último peixe,

só então descobrirás

que o dinheiro não é comestível”

ÍNDIOS CREE

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

        Acabamos de chegar, na nossa tradição ocidental, ao fim de um Milénio e ao começo de outro. Numa óptica cristã, isto significa que entramos no Terceiro Milénio. Mas a Humanidade tem já vários milénios de idade e a Vida, o planeta Terra e o própio Cosmos carregam vários milhares de milhões de anos de existência.

 

        Encontramo-nos neste momento num período de globalização neo-liberal, que tornou-se incapaz de resolver os gigantescos problemas económicos e sociais, políticos e culturais que perpassam a Humanidade como um Todo.

 

        Os diversos indicadores mostram-nos que as desigualdades económicas e sociais entre indivíduos, países e continentes não diminuíram. Muito pelo contrário, aumentaram e até se agravaram perigosamente. O planeta Terra é somente vivedouro hoje para 1/5 do género humano, ou seja, para uns 20% da Humanidade. Para os outros 4/5 restantes, para uns 80%, nada mais resta do que pobreza e exclusão. Destes, uns 40%, aproximadamente,  (sobre-) vivem na miséria mais extrema, a vegetar e a mendigar o pão nosso de cada dia, sem futuro.

 

        Nesta situação, tão tremendamente injusta, volta a colocar-se com força a questão da Vida e do seu Sentido. Grosso modo, podemos dizer que os poderosos vivem alienados na sua própria riqueza, no seu poder político e mediático. Aferram-se aos seus egoísmos de classe, de género, étnicos, etários, ecológicos e “civilizacionais”. Realmente vivem noutro mundo, com muito escassa sensibilidade social. No máximo, chegam a um assistencialismo “cardíaco”, para utlizar uma expressão unamuniana... Acreditam ser peças de um Destino abstracto por cima deles, que concede a cada um dos seres humanos o seu próprio papel neste mundo. A esse Destino chamam-lhe hoje Mercado.

 

        Também @s oprimid@s “vivem”, em grande parte, alienad@s, à procura da sobrevivência, querendo igualmente ser consumidores/as dentro da Ordem Estabelecida do/pelo Mercado. A maior parte deles/as estão excluídos/as do dito Mercado Universal. São mortos/as vivos/as, vegetais, “zoombies”, cadáveres sem enterrar da Guerra (neo)liberal de Baixa Intensidade (que, por vezes se aquece: vejam-se as guerras das últimas décadas de África, Ásia ou América Latina). Os/as excluídos/as têm, isso sim, a exclusiva da experiência irrenunciável e intransferível da injustiça e da marginação quotidianas.

 

        É verdade que as coisas são mais complexas – dizem-nos – que o que anteriormente foi exposto e que o mundo não é realmente este “claro” dualismo branco-preto[1]. Muitas vezes, também @s oprimidos/as pensam, sentem e julgam com os mesmos esquemas do dominador (lembremo-nos de Paulo Freire), desejosos de con-sumir o luxo “dos” poderosos. Os meios de (in)comunicação possuem uma grande responsabilidade nesta universalização do “pensamento único”, ainda que isso pode ser diferente numa comunicação alter-nativa. “Curiosamente”, este pensamento único da globalização neo-liberal é menos pluralista e democrático que os espaços de debate e intercâmbio de ideias do Areópago e da Ágora dos antigos gregos de Atenas. Naqueles tempos, aqueles espaços eram realmente mais abertos do que hoje se pretende globalizar a partir do Mercado Único[2].

 

        Eis aqui um diagnóstico rápido e cru -não muito animador, é verdade!- da situação mundial, no final do segundo milénio do nascimento desse grande revolucionário que foi Jesus de Nazaré, aquele a quem os poderosos do seu tempo quiseram calar a boca e apagar a sua recordação subversiva para @s de baixo. No entanto, fizeram-no bem: manipularam-no a seu bel-prazer.

 

        Mas quem escreve estas linhas não é fatalista. Continua a acreditar ainda na Revolução. Não só numa Revolução que vai acontecer um dia, mas na que se está a dar. Neste sentido, alguns/umas sociólog@s[3] defendem que nos achamos no meio de uma Revolução, no meio duma mudança de paradigma, que, como tudo, pode resultar frustrante (outra vez!) ou totalmente criativa. Uma revolução não programada, com multidão de sujeitos, sem uma classe dirigente messiânica ou que encaminhe o processo, com ambiguidades nalguns casos, situações e momentos.

 

        No entanto, é verdade que as mudanças tão esperadas, no que diz respeito a maior humanização e igualdade, ainda não são qualitativamente diferentes.

 

        Pessoalmente, estou convencido de que existem “matérias reprovadas”, ou ainda não resolvidas, neste milénio[4]. São já amplamente conhecidas: injustiças sociais, desequilíbrios económicos persistentes (penalizadores d@s mais pobres e “débeis”), “machismo”, etnocentrismo, ecocídio, violência, autoritarismo, etc. Devemos então, sem esquecer as ditas “matérias reprovadas”, construir um novo “curriculum”, o dos Novos Paradigmas (os velhos ficaram já obsoletos)[5].

 

        Este livro situa-se, pois, no que poderia chamar-se uma Nova Espiritualidade e no contexto da procura de Novos Paradigmas.

 

        Esta Nova Espiritualidade é holística: tenta superar os dualismos e as fronteiras. Assim, esta Nova Espiritualidade fala de Mística , Física Quântica e Relativista, Técnicas Qualitativas de Investigação Social, Meditação Zen, Cultura Alter-Nativa, Eco-Pacifismo-Feminismo, Consciência étnica e afro, Nova Civilização, Democracia Participativa, Anti-autoritarismo, Não-consumismo, Qualidade de Vida, Igualdade nas Diferenças,  Racionalidade-Afectividade, etc. Tudo isto articulado conjuntamente. Estes e outros elementos mais configuram os Novos Paradigmas ético-epistémicos.

 

        O modesto trabalho que aqui apresentamos procura recuperar algumas figuras históricas chave das múltiplas revoluções que se deram, ao longo dos tempos. São figuras significativas, pelo menos para o autor que estas linhas escreve. Porém, não se trata de um conjunto de apologias, louvores ou panegíricos épicos a toda esta gente, protótipos de Revolução Radical (um pleonasmo!) nas diversas regiões do Real, mas tão de carne-e-osso como o resto dos mortais (estamos convencidos de que a mitificação é conservadora e “de direita”)[6].

 

        O que pretendemos neles/nelas encontrar é uma ideia-força, um leitmotiv concreto de transformação, uma utopia apaixonante que centre as Vidas deles/as com sentido.

 

        De um ponto de vista formal, como podem facilmente ver, utilizamos a poesia (ou prosa poética) na Primeira Parte (I) deste livro. Porquê? Porque achamos, sinceramente, que se trata da “ferramenta epistémico-metodológica” mais apropriada para captar a mensagem essencial de uma pessoa, de uma vida entusiasmada pela Verdade, a Justiça e a Liberdade.

 

        Pelo contrário, ainda que conjugando-se  também com o que anteriormente foi dito, arribamos na Segunda Parte (II), em estilo de ensaio, a alguns conteúdos centrais desta Mística revolucionária (ou Revolução mística, apesar de que alguns/algumas possam ressentir-se desta formulação...). Procura-se aqui, ainda que se presuponha uma abordagem prévia teológica, filosófica e sociologicamente articuladas, um desenvolvimento (apenas relativamente) mais acessível, mais divulgador destas questões.

 

        Este texto representa o itinerário existencial da busca pessoal do próprio autor.

 

        Mas não tenho ilusões. Ainda que gostasse que este livro se difundisse o mais possível, que fosse comentado, partilhado, debatido, criticado e superado, sei que acabará nas mãos de minorias.  Isto não me preocupa. O que procuro não são minorias narcisistas, mas minorias “fermento-na-massa”. Minorias abraâmicas que tenham uma verdadeira paixão existencial-política para se transformar a si próprias e ao mundo que as rodeia. Que estejam possuídas pela Força da Verdade e da Liberdade. Aqueles/as que contemplaram o Sol de como as coisas estão chamadas a Ser não podem, de uma maneira mesquinha, ficar satisfeit@s com voltar depois, de cabeça baixa, à Caverna- prisão quotidiana  da Mediocridade.

 

        Por isso, deixo ao final umas quantas páginas em branco para que @ leitor/a possa continuar à sua maneira o livro, tomando notas das suas próprias visões, reflexões, críticas... a/de essa Revolução (de que ninguém é don@!), que vai prosseguir também, pessoal e colectivamente, ao longo do próximo Milénio, segundo acreditamos.

 

        Bom proveito!

 

 

 

rui manuel

lisboa

31.12.1998

atenas

17.02.99

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I. POESIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. SINFONIA

 

 

 

Vomitar acordes,

em certeiras pedradas,

geniais,

desinstalando

fingidas sensibilidades,

despertando

românticas paixões,

com coros de Schiller

cantando “À Alegria”,

sordeiras divinas,

cataratas de Música,

harmonia

em golpes

de suprema Beleza subjectiva.

E a estrela

do Compositor,

que aos poucos se vai elevando

até às galáxias cósmicas,

onde o silêncio é Música,

triunfo sobre o som,

como na interioridade,

no microcosmo

de um artista total,

chamado

Ludwig van Beethoven.

 

 

 

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2. O FÍSICO E A INQUISIÇÃO[7]

 

Apaixonado propagandista

de uma Nova Era,

potenciando os sentidos

à base de telescópio:

per modus technologicus

ver mais longe,

ainda que mais perto,

se possível.

Definitivamente,

não somos

o Centro do Universo.

Quiseram-te queimar:

acabaste para sempre

com o Trono e o Poder

do macaco nu.

E aproximaste-lo mais a Deus,

um Deus Maior,

porque ilimitado

tornou-se o Uni-verso

(tão-pouco o Irmão Sol

é já o Centro).

Sim,

talvez não haja Centros,

quiçá,

tudo é Centro

e cada um e uma de nós

somos

um Centro.

Indicou-nos o velho Arquímedes

que tudo possui um ponto de apoio,

a partir do qual

é possível

mover o Mundo

(a partir de nós).

Também Aristarco,

o sábio de Samos,

tinha razão.

Porém,

mais pesou

Aristóteles

na Gravitação Ortodoxa.

Galileu Galilei,

nomotético Astrónomo,

palpitante, polémico, subversivo,

quiseram-te agrilhoar

na Estática

dos comuns pre-juízos,

axiomática do Poder.

Para ti,

eppure,

o mundo

si muove

(e a nossa mente com ele!).

 

 

 

 

 

 

manágua

03.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3. DO ASTRÓNOMO OU DO RELÓGIO CÓSMICO

 

 

Trombudo e carrancudo,

filo-teósofo da Natureza,

físico insigne,

Isaac Newton.

Puseste-nos a gatinhar

num Universo

de Acção-Reacção,

de Atracção-Repulsão.

Espaço e Tempo

ainda Absolutos.

Universo,

de momento,

insuficientemente livre,

não quântico,

como se um

Observador Absoluto,

existisse,

Deus feito Físico.

Em hipóteses

não acreditavas,

mas de criá-las

não te reprimiste

quando da árvore

a maçã caiu

(e afinal,

caiu na tua cabeça ou não?).

(Outros,

refere o Mito,

comeram-na

e assim nos resultou...).

Mas pensar é revolucionar os neurónios,

sinápticas conexões

que Nova Realidade

criam.

Isaac,

hermético e esotérico,

ao lado de um Deus relojoeiro,

num Cosmos-Relógio,

acreditaste poder explicar

o Mistério deste Universo,

perpassando a Física.

E se é verdade,

ó grande pecador!

que alguns

à Forca

enviaste,

por dívidas do vil dinheiro abjecto,

espero que nessa Eternidade que te envolve,

possas,

algumas lições mais

aprender:

que um Deus Diferente

não só,

a partir de um Cosmos Infinito,

se descobre,

mas também na Gande Fraternidade-Sororidade

de Homens e Mulheres,

gravitacionalmente atraíd@s

pelo Amor Universal.

 

 

 

 

 

 

manágua

03.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. MATÉRIA=ENERGIA[8]

 

 

Poesia simbólica,

de matrizes e integrais entretecida,

equações

que apresentam

“a realidade”

de um mundo irrepresentável,

físico-matemático relativista,

místico secreto,

traduzido

em bombas nucleares

pelo imperial Poder-USA,

destruindo a VIDA,

apesar da tua paixão pacifista.

Ciência e Paz,

Paz-Ciência,

diante de

poderosos,

avarentos,

gananciosos,

medrosos,

Conquistadores

de espaços-tempos

que lhes escapam.

E=mc²,

símbolo da Unidade Cósmica.

E se a velocidade da Luz

não fosse o limite?

Onde estão os limites?

Onde estão os nossos limites?

Ou é tua,

Albert,

uma física ainda humana,

demasiado humana,

antrópica?

De onde vimos?

Aonde vamos?

Quem somos?

Que podemos saber e esperar?

E se Deus brincasse aos dados?

Irmão Einstein,

da Ciência e dos Paradigmas

transmutador,

revelaste-nos

um mundo de vertigem,

vertigem de um Universo Novo,

com um Novo Ser Humano,

nascido de perguntas

genialmente simples:

para tornar-se

radicalmente revolucionári@s

há que voltar,

pois,

a ser

crianças.

 

 

 

 

 

 

manágua

28.02.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. O FILÓSOFO

 

 

“Só sei que nada sei”

e esta é a maior das sabedorias:

tactear os nossos limites,

ultrapassando-os,

interrogar e interrogar-nos,

sem fim,

valentemente,

crença absoluta

nessa Verdade

que tod@s hospedamos

(antopológico optimista).

Permanente,

e não pedantesco,

diálogo,

para junt@s

descobrir

uma Verdade

essencialmente colectiva.

Subversivo,

maieuta,

obstetra da maior formosura

que em nós lateja.

Cicuta,

como prémio,

ofereceu-te

o Poder.

O Poder nunca é democrático,

nem nunca poderá sê-lo

(só a Anarquia,

poder fragmentado,

socializado,

compartilhado,

numa multiplicidade de pedaços transformado,

e nenhum mais poderoso que outro.

Assembleia Permanente,

Diferentes à procura

Da Comum-Unidade),

Sócrates,

ácrata peregrino

(de direita ou de esquerda?),

sempre irmão.

De milhões de Sócrates

necessitamos,

ou então,

descobrir o Sócrates

que em cada um/a de nós mora,

para construir,

junt@s,

revolucionariamente,

um Mundo Novo.

Sem ti,

autêntica Revolução

não existe,

porque não há Mudança

sem Pergunta,

sem Dúvida,

sem Dialéctica,

sem Questionar

Questionando-se,

sem Agitar-se.

 

 

 

 

 

 

manágua

06.04.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 6. DIREITO AO DESEJO[9]

 

Explosão de lúcidas paixões,

recuperando o amaldiçoado desejo,

núcleo dos nossos átomos,

eterno fogo cambiante,

inquieto,

criativo,

dubitativo,

infantil anseio

de  plenas omni-potências humanas.

E,

no entanto,

tão pequen@s,

tão mesquinh@s,

tão vermes,

tão pouca coisa,

repugnantes.

Bisturi vienês,

preciso e riguroso,

os nossos sonhos

recortando e recriando,

sempre mensageiros.

Todo-poderoso Racionalismo Crítico,

à procura,

sem cessar,

do porquê e do para quê.

Mas,

e se a razão última da VIDA

fosse a não-razão,

o não-porquê,

o não-para-quê,

a absoluta Gratuidade,

a Generosidade existencial,

a bela flor

perdida na Montanha,

o Silêncio,

o Vazio no Centro do Ser,

multi-espaço,

que acolhe,

plenamente,

todas as Formas,

todos os sonhos,

e também o Sonho de Brahma

que é o Mundo?

Somos,

porventura,

o Sonho

de Deus?

 

 

manágua

03.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. TRANSMUTAÇÃO DE VALORES[10]

 

Morreu Deus?

Nem me apercebi!

Deus morreu!

Então que vivam os novos deuses!

O mundo está do avesso,

pernas para cima,

e os ídolos o fundamentam,

com promessas doces

e pseudo-verdades.

Cortem as correntes,

não sejam covardes,

e descubram que

a Verdade é Mentira

e a Mentira, Verdade!

Não acreditem em discursos perfeitos,

nem nas belas retóricas,

trocadilhos,

paradoxos,

isagoges,

metáforas

e alegorias.

Acreditem na complexíssima Simplicidade

da Verdade.

Não tenham Medo!

Quanto mais pulcro,

belo,

com ordem

e harmónico,

mais falso!

Acreditem no balbucio,

na vacilação,

no gaguejo,

no disparate,

no lapsus linguae.

Aí é que encontram mesmo as verdades!

(Suprema Alegria!).

(Existe “a” Verdade?).

O verdadeiro é o corpo,

e a alma,

uma perigosa metáfora,

corruptora dos Sentidos.

Resgatar a Luz,

o Mediterrâneo,

Itália e Grécia,

a paixão de viver,

dionisíaca.

Desmascarar

a VIDA apolínea,

que outra coisa não é do que Morte,

máscara disfarçada de Thánatos.

Mas,

querido Federico,

foi isto mesmo o que pregou,

há dois mil anos,

contra Fariseus, Escribas, Saduceus e Sumos Sacerdotes,

Eminências Excelentíssimas,

o camponês e operário,

o subversivo profeta,

da Galiléia!

 

 

 

manágua

03.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8. O SOCIALISTA[11]

 

 

Judeu,

“morto de fome”

(salvo por Engels),

descobrindo

a essência do Capital

e os seus perversos feitiços.

Filha que falece,

entretanto,

como tributo,

para que a Deusa-Economia,

capitalista,

perfeitamente

funcione.

Luta de classes,

como ciência,

como método

para olhar em frente

a nossa realidade

sócio-histórica e contraditória.

Socialismo em pé!

Revolução à base

de greves e conceitos,

de armas e “Weltanschauungen”.

Incansável trabalhador,

qualificadíssimo proletário da Ciência,

de difícil convivência,

um tanto autoritário,

absolutamente convencido das próprias razões,

profeta do Comunismo,

da Nova Sociedade.

Querem-te esquecer,

irmão,

desejam exaltar todos os teus livros

à crítica dos ratos,

porque ainda és,

francamente,

incómodo.

Porém,

queiram ou não,

estes e estas burguesotes/as,

consumistas,

e os seus pseudo-profetas do Mercado total,

o Futuro,

que é nosso Presente Contínuo,

sonhado

Qualitativamente Diferente,

arquitectado se acha

de argamassa social,

de lutas sem fim,

de sobrevivência

contra o Sistema,

imaginado

de mais-valias partilhadas,

de conscientes revoluções,

de sangue generoso e abundante,

de suor e lágrimas,

de ingente terra queimada,

de enorme inteligência,

estratégica e táctica,

até que floresça,

verdadeira,

um belo dia,

qualquer coisa

a Utopia

semelhante.

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9. REVOLUÇÃO PERMANENTE[12]

 

 

Companheir@s neo-trotskistas,

Esquerda alternativa,

crítica,

renovada e

utópica,

modern@s intelectuais,

“à esquerda do possível”,

jovens, mulheres, pret@s, imigrantes,

estudantes inquiet@s,

operári@s conscientes,

ecologistas,

semi-vegetarian@s

e nudistas,

respeitadores/as da opção sexual,

anti-militaristas,

feministas,

indigenistas,

anti-racistas,

neo-marxistas humanistas,

semi-anarquistas

e “outr@s-istas” alternativ@s,

sempre a favor de uma Revolução Inteligente

das MINORIAS ABSOLUTAS.

Não será que,

pelo sim pelo não,

tinha razão o BAKUNIN,

quando pregava

que não são as maiorias,

senão as minorias,

as que fazem “a” Revolução?

 

 

 

manágua

08.03.98

(dia internacional

da mulher trabalhadora).

 

10. MANIFESTO ANARQUISTA[13]

 

(Contra J.W. GOETHE,

com licença!,

que escreveu:

“Prefiro a injustiça

à desordem”).

 

 

Preferir a Des-Ordem

(o Kaos, para os banqueiros e idólatras do deus-Mercado)

à In-Justiça,

ou melhor,

uma Outra “Ordem”,

alter-nativa,

sempre na procura,

nunca nada,

nada nunca,

definitivamente

achado

ou descoberto,

porque seria isso

sinónimo de Morte.

Evangelho da práxis ética,

Boa Nova

para tod@s e cada um/a

d@s deserdad@s e subjugad@s da Terra.

Autoridade moral,

racional,

provisória,

fiscalizável,

reciclável,

pisando “suavemente”,

se possível

(e se impossível!),

num Cosmos de equilíbrio instável.

Poder descentralizante local,

quero dizer,

não-Poder.

Poder d@s im-potentes da História.

Liberdade para que as mulheres

sejam elas próprias,

orgulhosas dos seus corpos

e dos seus ideais,

não mulheres-objecto.

Assembleia Permanente,

Filosofia do Consenso,

sem Maiorias espezinhadoras,

nem minorias amachucadas

e ressentidas.

Utopias das Di-versidades

Macro-micro,

de histórica espingarda guerrilheira

(sempre a condenar pseudo-anarquias terroristas)

ou Não-Violência Activa

(a melhor de todas!),

para que @s Pequen@s,

empobrecid@s e oprimid@s,

encontrem o seu próprio caminho,

e não tropecem

na aborrecida Mímese

do Poder Dominante

(que chatice!),

sempre tão orto-doxo

e politicamente correcto.

Franciscan@s polític@s,

económico e sociais,

subvertendo a Política,

propagando uma Nova Sociedade,

idealistas práticos,

generos@s na sua dádiva,

Revolução Já,

Aqui e Agora!,

(antes que seja demasiado tarde!),

portanto

com Igualdade Fundamental

nas Diferenças

(positivas)

genéricas, étnicas e etárias,

supressão de classes,

descansar só para avaliar,

e depois pro-seguir,

seguir,

pós-seguir,

continuar avante,

e mais a fundo,

Sem-Fim,

etern@s Peregrin@s

da Permanente Mudança,

crentes optimistas

na Ciência

e em tudo o que de Bom

mora

nas Mentes e Corações Human@s,

no flanco da Esperança,

a “nossa”Verdade Colectiva.

Sim,

é verdade,

Jesus de Nazaré

foi o Maior dos Anarquistas!

 

 

 

manágua

02.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11. O LUSITANO REBELDE[14]

 

 

“Roma não paga a traidores!”

(Ao contrário,

são os traidores os que pagam a Roma!)

E assim vivem os Impérios:

sugando o sangue, o suor e as lágrimas

de tod@s @s outr@s

(@s resignad@s).

Porém,

Sagradas Rebeldias

sempre habitarão,

como Vermelhos Sacramentos,

em Terra e Liberdade

fecundadas.

 

 

 

manágua

28.02.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12. GENERAL DE HOMENS (E MULHERES) LIVRES[15]

 

 

Guerrilheiro pacifista,

teó-sofo da libertação,

arauto de práxis anti-imperialistas,

sonhador de chapéu e lenço,

de coração vermelho-preto,

general sem medo,

humanista

e universal:

Augusto C. Sandino,

PRESENTE!

Combater o gringo,

Irmão do Norte sem norte:

“PAZ  sem VERDADE,  JUSTIÇA e IGUALDADE

é,

companheir@s,

uma ilusão!”

O teu amor,

(quase) sem ódio nem rancor,

transtorna e enerva

todos os mercenários

de Capital sem fronteiras,

de lucro divinizado a golpe de dólar,

militarmente entesoirado

a preço de sangue,

fome,

e escravidão

do povo oprimido.

Viriato nicaragüense,

indómito Zapata centro-americano,

o teu espírito

re-encarna-se

definitivamente

naqueles/as que gritam

ao opressor:

“JÁ BASTA!”,

e a sua própria vida,

sacrifício de redenção,

oferecem,

como hoje em Chiapas,

indígena e camponês,

alimentada à base

de solidariedades internacionalistas,

procurando um melhor amanhã

com tortilha e feijão

(e dentes para comê-los!),

sapatos,

para todas as crianças descalças,

sem parasitas,

com um sorriso nos lábios,

carinho, escola e liberdade.

Sandino,

que bala

poderá

acabar

com

esta

Utopia?

Companheiro,

nas nossas lutas

juntos sonharemos que algum dia

as Nicaráguas do mundo,

do passado, presente e futuro,

triunfarão

e,

fundidas,

renascerão,

como uma única rosa,

de pétalas,

vermelho-doces,

abertas,

irmanadas.

 

 

 

san salvador

05.11.95

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13. AO CHE, UBÍQUO E OMNI-PRESENTE

 

 

 

Ao Che

matou-o

uma bala

(ou foram várias?),

de um soldado

ébrio

(e continua a sua bebedeira!).

Mas,

quem

pode

assassinar

um Mito?

Quem

pode

matar

a Liberdade,

a Luta,

o Desejo de Mudança

e o Amor pela VIDA?

 

 

 

manágua

1997

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14. O EVANGELHO SEGUNDO SUB-MARCOS

 

Encapuzado,

sem rosto e sem nome,

símbolo comunicante

daqueles/as que,

como @s indígenas,

nada significam,

de tanta gente que nada vale,

neste mundo globalizado,

neo-liberalmente

homicida.

Sub-comandante obediente

do Comandante-Povo,

do único que manda,

ainda que não tenha

escolas,

remédios,

saúde,

trabalho pago,

dinheiro,

nem futuro

(sempre hipotecado).

Representante mestiço

de indígenas massacrad@s,

de Selva violada,

de animais que sonham e falam,

de fábulas com nomes,

de esperanças com-partilhadas.

Companheiro

de um Novo Mundo,

porque este,

este,

definitivamente,

ficou

pequeno,

muito pequeno,

muito nada,

por não saber

amar,

com um grande sorriso,

as crianças todas.

 

 

manágua

janeiro de 1998

15. O PROFETA DA GALILEIA

 

 

Jesus de Nazaré,

o primeiro d@s Anarquistas,

revolucionário d@s Pobres,

cujo Deus era Revolução

(e não só!):

"@s últim@s serão @s primeir@s

e @s primeir@s, @s últim@s"

(Mt 20,16).

Paradoxal Inversão Messiânica,

Reinado do Povo,

sem Romanos nem Saduceus,

sem Sumos Sacerdotes nem Fariseus,

sem Escribas nem Publicanos,

que aos/às últim@s oprimam e excluam.

Revolução Radikal

à esquerda da Esquerda,

calcada e manipulada

pelos poderosos

do Império.

Fé histórica

em Religião institucionalizada

con-formada,

Utopia de Transformação

em Ópio e Negócios

transmutada.

Ressurreição d@s Crucificad@s!

Definitivamente,

não te mataram!

Desse Grande Sonho

precisamos,

do Grande Sonho

do Profeta galileu,

daquele que comia, dormia e respirava

o mesmo ar d@s Derradeir@s,

d@s que não contam:

era certamente um deles/as!

Apesar de tudo,

vivo continuas,

pois o teu Deus d@s Pobres

uma VIDA sem fim concedeu-te,

nas mãos d@s que,

nos infernos da História,

vegetam.

Vem connosco,

Jesus de Nazaré,

vem connosco

hoje

incendiar

os Templos

e rasgar

o Sagrado Véu

do deus-Mercado!

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16. MIRIAM

 

 

Mulher do Povo,

Mulher real,

Mulher de carne e osso,

de rugas,

pó,

sal

e

mar.

Assim não te pintou o Murillo!

Lutadora do Quotidiano,

de Camponeses/as-Sem-Terra

e operári@s à jorna,

analfabeta,

talvez,

Sábia Mulher do Sonho da Grande Igualdade,

do Israel originário.

Amor em acções,

sacrifício e sangue,

gerando sem varão

-suprema feminista!-

o próprio Filho de Deus.

Militante Subversão

a do teu Magnificat,

porque Deus é D@s-de-Baixo,

e se o Mundo está ao contrário,

então,

carago!

(perdão!)

há que mudá-lo!

Mulher

Valente,

pleonasmo de quotidian@s sobreviventes,

eterna Caminhante

a través das Veredas

de uma Verdade

de Ser Humano formada,

nas tuas entranhas gerada,

cheirando Libertação.

 

 

 

manágua

1998

17. FRANCESCO

 

 

Assis inteira é a tua Comuna,

a tua perugiana Mãe-Terra,

jogral da divina Fraternidade,

sem limites,

o teu Mosteiro, o Mundo,

por pássaros habitado,

por peixes,

lob@s,

Sol e Lua,

Masculino-Feminino,

Tod@s Irmãos/ãs Noss@s,

com a Irmã Chiara,

damas-Pobreza

e homens-mulheres-pobres,

evangélico Mundo

de estropiad@s,

lepros@s

e marginais,

amassado de Utopias,

de Democracia Cósmica,

emergente

(a partir de "baixo",

é claro!,

sempre do mais "baixo"),

humilde humus da terra,

frater minor,

Irmão Francisco.

Nada possuir,

para ser,

absolutamente,

livre,

para Ser,

para Denunciar,

com a própria VIDA,

a Propriedade,

desse

comercial proto-capitalismo medieval,

nas Armas e na Lei,

Suprema Violência,

apoiada.

Eternamente apaixonado,

o louco mais prudente

de quant@s te rodeiam,

poesia

em VIDA,

como VIDA,

Trovador do Deus

da "Perfeita Alegria",

e de todas as coisas

sub specie Dei

(Deus et omnia)

ad-miradas.

Primavera,

Simplicidade,

Lúcida Ingenuidade

que des-concerta,

que des-instala,

búdica Compaixão des-bordante,

Jovialidade,

Juventude,

Amizade,

Comum-Unidade,

Ecologia,

Cântico do Irmão Sol

e das suas iluminadas criaturas,

teologia em trabalho manual traduzida,

braços que constroém

Igrejas

que jamais,

jamais!,

serão derrubadas,

pois são os próprios corpos pobres

de uma Horizontalizade sem Fronteiras

e com Fé Pura.

Peregrino medieval,

do Sopro do Espírito,

Francesco,

Mendigo e Mendicante

que Tudo (o Todo) possui:

as tuas mãos livres,

abraçam

de uma só vez,

Deus no Mundo,

cordialmente.

 

 

 

manágua

28.02.96

 

18. IL SANTO[16]

 

 

António,

o milagroso

malgré lui

(e se houvesse

outra explicação científica

para os milagres?),

que aos peixes pregava,

os seus melhores ouvintes,

perante a indiferença humana,

eco-pregador.

Ser mártir a fogo lento,

no quotidiano,

na escuridão,

na humildade,

no silêncio.

Sermonário cozinheiro,

Beleza e Verdade

juntas,

directas

ao Coração.

De pequeno,

de muito pequeno,

na tua mesma cidade de Ulisses (?),

para ti (?) eu pedia,

em mealheiros de barro.

Tantas moedas que não te devolvi!

Mas bem te vingaste!

A bom preço

me compraste,

realmente,

para @s Pobres!

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

19. DOMINGOS, O PREGADOR

 

 

Mendicante

de uma Nova História,

mesclada de Evangelho e Humanismo

(são diferentes?),

fazendo saltar,

dos seus gonzos medievais,

o teu Tempo,

com Democracia Eclesial

(e Universal).

Pertinaz Pregador

da infinita Generosidade,

de um Deus Único e Plural(ista),

que prefere

a Pobres e Excluíd@s.

Vender livros em Palência,

para alimentar estômagos vazios.

A Ciência e a Verdade

ao serviço da Fome.

Programa:

con-vencer

sem violência,

“à força” de testemunho de vida.

Rasgar caminhos,

a golpes de contemplação,

orar de mil e um jeitos,

até que o Espírito,

em tão limitado corpo,

não caiba,

e depois dormir,

dormir,

nos últimos bancos

de uma igreja qualquer,

lá bem no fundo.

Frequentes lágrimas

pel@s irmãos/ãs pecadores/as,

pois o egoísmo é ignorância,

e perca de Tempo,

de VIDA

e de entrega:

não crescer!

Domingos,

Irmão,

que pelos rumos do Evangelho

o trigo não apodreça

o teu  santo Ideal,

que,

archote em mão,

sem demora,

acenda

um Fogo purificador,

de tantas eclesiásticas propriedades acumuladas,

de tantas igrejas traidoras,

de neo-liberais assassinos projectos actuais,

de poderes supremos,

filhos do Leviathan.

Que os latidos

do teu Coração,

nos acordem

para a

Grande

Luta

Final!

 

 

 

manágua

28.02.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

20. TOMÁS DE AQUINO: UM EPITÁFIO POÉTICO

 

 

Aqui jaz

o Boi Mudo,

silencioso agitador de sinápticos neurónios,

aparente ignorante,

a pesar de sumar Summas e mais Summas,

onde se dividem e multiplicam

à enésima potência,

saberes e mais saberes,

querendo dissecar

o próprio Deus!

E Ele,

cuja essência é sempre se escapar,

como,

no mar,

o sal

se dissolve,

como,

num cesto de vime,

a Água,

como,

no vento,

o Fumo,

como,

nas costas da mão,

o Perfume.                                                                                   

Tomás de Aquino,

militante racionalista,

formidável Arquitecto

de uma Catedral

em permanente construção,

sempre incerta,

pelo Não-Poder

do humano Saber,

minguante.

Irmão Tomás,

coerente até ao (teu) fim,

descansa agora

(envenenado?)

na Suprema Paz

do Cristo,

Alfa e Ómega,

a Quem

sempre procuraste.

Saber calar(-se)

no fim,

depois de tanta luta,

querendo arrancar,

como Jacó,

teó-logo,

de Deus,

o seu Mistério.

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21. O FRADE UTÓPICO

 

 

Insurrecto da Matéria,

veementemente Epónimo

de um Ser Humano

Novo,

não solitário,

comunitário acompanhante

da Infinita Natureza.

Unitária visão,

Holismo libertador,

O Máximo no mínimo,

micro-cosmos no Macro-cosmos,

holográfico filo-cientista,

(panteísta?

Ou pan-en-teísta?

Compreendemos-te verdadeiramente?),

Físico (quase) relativista,

quiçá pré-quântico,

a séculos de distância

(anacronismo

ou é a Poesia-Filosofia

que dá tanto de si

quando é

apaixonadamente

lúcida?),

como Teilhard de Chardin,

como Ernesto Cardenal,

exuberante juventude

de espírito livre,

Renascentista.

Os Sistemas,

porém,

não toleram

a Liberdade.

(Mas o Fogo

é incapaz

de queimar

a Liberdade).

Giordano Bruno,

hoje

ressuscitas,

Pleno,

integralmente Actual,

de irónico sorriso,

perante

desesperadas

e inúteis

Fogueiras

de cruéis,

ignorantes

e todo-poderosas

hordas

inquisitoriais.

Aleluia!

 

 

 

manágua

02.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22. O FRADE POLÍTICO[17]

 

 

Era uma vez

um frade muito revolucionário,

incomparavelmente subversivo

orador impetuoso,

totalmente fogo e paixão,

lúcido moralista,

fustigador de

Medicis

e eclesiásticos da mesma espécie,

lá nas terras da bela Firenze,

na exigente procura de terrenais paraísos poder construir,

neste in-mundo mundo,

tópico u-tópico,

Evangelho e Política irmanados,

Ética viva,

exaltada até,

ardente e

precisa.

Porque será

que a tant@s e tant@s In-submiss@s

falta-lhes o Tempo

para as suas ideias

exemplificar,

concretizar,

materializar,

para,

antecipadamente

arrancar,

um pouco

(tão somente),

de Luz,

de Liberdade,

de Justiça,

nesta suja

terra

de tirânicos

poderes?

(Ou esse pouco

é ainda demasiado

para os poderosos?)

Quando emergirá

um Mundo

totalmente

ao Contrário,

não só sonhado,

desejado,

e sim experimentado,

vivido.

Sim,

Quando?

Quando?

Quando?

Quando?

Quando?

Quando?

Quando?

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23. A CONTRA-CORRENTE

 

 

Bartolomeu

de Las Casas

e Mundos Livres,

Irmão

de hábitos e utopias,

Profeta grande daqui,

das Verapazes,

de Rabinal,

Cobán,

Chiapas,

e outras topias mais,

sobretudo

da Nova Jerusalém

sincero crente,

Aqui,

nesta Terra,

de convicções inundado,

de pacíficas

pegadas

e horizontais sonhos,

pena de polémicas

denúncias

evangélicas.

Antropológica

Sabedoria,

misturada

com mitos,

ritos,

incensos

(pom),

pontos

cardeais,

cores,

tortilhas

e cacau

sagrado,

e históricas esperanças colectivas

a partir de baixo,

a partir da Mãe Terra,

nesta Santa Terra,

maternal rosto do Eterno Deus,

Pai/Mãe,

Mãe/Pai,

repetidamente crucificad@

cada dia

em corpos

Indígenas,

"macheteados",

baleados,

explorados,

feridos,

violentados,

massacrados

por cruéis

Exércitos

da

rica,

culta,

cristã

e

Humanista

Civilização

Ocidental

(Sacrossanta!)

e seus títeres.

Frei dos Indígenas,

o teu positivo Projecto

nestas terras

ainda paira,

fecundando libertações,

e o teu eremítico fantasma,

ergue-se,

poderoso,

com um terrível grito:

"JÁ BASTA!

QUEREMOS RESSURREIÇÃO!"

 

 

 

rabinal

08.02.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

24. TITO DE ALENCAR

 

 

 

E se a Morte

e a Tortura

que gemem,

a pior pena não fossem,

mas o Sem-Sentido,

a Utopia esvaziada,

o Abandono

dum Deus longínquo,

miseravelmente silente

quando mais gritamos

e nos des-esperamos,

In-existente,

essa definitiva

Fugida

do Deus ateu

que tod@s,

de alguma maneira,

dentro levamos,

lá no Fundo,

bem escondido?

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

25. CARLOS MORALES

 

 

Esquecido frade guerrilheiro

de pretéritas batalhas guatemaltecas,

apaixonado patriota,

índio total,

mestiço,

e por isso mesmo um pouco de castelhano também,

estrela fulgurante

de Novos centro-americanos Amanheceres,

o teu bravo espírito lutador,

como orvalho,

se difunde

sobre a verde GUATE-MAYA,

e fecunda,

e cresce,

em silêncio,

grandeza

e Dignidade,

como a semente do milho,

no teu coração-terra,

já Universal,

em Liberdade

semeada.

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

26. O MESTRE ECKHART

 

 

 

Tudo

o que

sobre Deus

afirmamos

é Falso.

Calemo-nos,

pois.

Do Silêncio

a Palavra

emerge.

 

 

 

manágua

1998

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27. O MÍSTICO

(QUE NÓS TOD@S SOMOS)

 

 

João

da

+

à base

de Nadas

esculpida,

a golpes

de penitência,

negações

e extáticas

graças.

Do Deus Vivo,

Testemunha,

por eclesiásticas medio-cridades

perseguido,

num nostálgico

Vazio

sus-penso,

numa Divina Promessa

confiado,

re-criado

em simbólicas Palavras,

verdadeiras,

Quase-Justas,

Experi-mentadas.

Vibra

a tua mística linguagem

ao uníssono

de outr@s testemunh@s,

de outras religiões,

de outras culturas,

de outras ex-peri-(c)iências.

Obstinado reformador convicto,

gémeo de Teresa de Jesus,

aprendendo realismo

em apaixonadas acções.

Não há mais Mística

frei João,

que Amar,

ardendo,

a fundo perdido,

sem nada pedir,

nua-mente,

à Fonte do Todo,

ao Mistério sem Origem nem Fim!

 

 

 

manágua

28.02.98

.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28. O TEÓLOGO CONTEXTUAL[18]

 

Dietrich,

Teologia

com a VIDA

levedada,

em Procura,

Experiência

aberta

à expectante Surpresa,

superando desafios,

fugindo para a Frente,

sempre para a Frente,

e para o Fundo.

Coerência,

Resistência,

até ao Limite.

Assassinado.

Baptismo de sangue

e oração com-partilhada,

prisioneiro monge luterano,

radical

do Sermão da Montanha.

Espiritual cantor,

convicto anti-hitleriano,

Perdedor?

Política

em Amor Com-Prometido.

União de Teoria e Práxis

(Maioria de Idade

do Ser Humano).

Práxis de Justiça e Igualdade,

Teoria do Deus Humanado,

feito Irmão/ã

de milhares de oprimid@s,

em ti,

Bonhoeffer,

na Cruz pendurado.

 

 

 

manágua

04.03.98

29. ROMERO DA AMÉRICA, PASTOR E MÁRTIR

 

 

Monsenhor,

Bispo

começaste,

peregino dos cantões de El Salvador,

tímido e conservador,

inimigo de "padres comunistas",

e "formosuras" deste estilo,

devoto da "Opus Dei"

e do seu fundador.

Mas sempre honesto,

sincero,

sempre próximo d@s "teus" pobres.

Mais velho,

já Arcebispo,

mudaste,

incrível milagre

do Deus d@s Pobres

e d@s Pobres de Deus!

Profético denunciador

de Ricos, Militares, Latifundiários

e Políticos corruptos (pleonasmo!),

vende-pátrias, vende-almas e vende-tudo,

certeira Palavra,

justa,

verdadeira a tempo,

no Tempo,

mas...

o Poder não tolera Verdade!

Microfone internacionalista,

Voz d@s sem-Voz e sem-Vez

(e sem-Terra!).

Revolucionário

de, para, com, por causa de, pelo...

Evangelho,

aprendiz d@s teus/tuas humildes

Irmãos/ãs salvadorenh@s,

simples pastor humano,

Humaníssimo!

Arriscaste a VIDA

e ganhaste-a!

Do mais Além,

Monsenhor,

junto do Cristo camponês e operário,

pede-lhe que envie

nov@s Profetas,

de maneira que,

a exemplo teu,

logo,

logo

ressuscitem

no crente,

torturado e esperançado,

Povo d@s Pobres.

 

 

 

manágua

04.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30. TOD@S NÓS SOMOS HEREGES[19]

 

 

Hereges,

por "graça de Deus",

frente a oficiais Poderes,

sagrados matrimónios

de Trono e Altar,

históricos,

recurrentes.

Pregar,

vivendo a Pobreza,

atacando uma Igreja

prostituta do Estado,

corrupta do Dinheiro,

Sexo e Poder,

acreditando

nos valores do Espírito

(e basta!),

frente ao rasteiro materialismo.

Criticar as Hierarquias

(sempre com Miúsculas!)

da Des-igualdade

(também para o Mais-Além!).

Crentes

num Reino de Deus

Milenário,

Eterno,

Comunismo na Terra,

sem Propriedades Privadas

nem Pré-Potências,

desbordante Mística,

afectiva e/ou racionalista,

tanto faz,

comerciantes

que aos/às Pobres tudo entregam,

querendo acompanhar,

como Francesco,

livres,

o Jesus da Boa Nova

 

(E claro,

também

se enganaram,

como @s Santos

e toda a gente.

Infalível,

só Deus!

E,

ainda assim,

se arrepende,

diz a Bíblia...).

O espírito humano

é,

estruturalmente,

herético

(quem esteja livre de culpa...

Perigosos,

perigosos,

só os "Ortodoxos":

livrai-nos deles,

Ó Deus!).

O espírito humano

é,

continuamente,

heterodoxo.

Ainda bem!

Porque avança e retrocede,

Experimenta,

acerta e engana-se

cai e volta a levantar-se.

O erro é a Mãe da Verdade.

O erro alimenta a Verdade.

Ai,

quando alguém fossilize

o Comboio da História,

meditemos:

Todos somos Hereges...,

Graças a Deus!

 

 

 

manágua

02.03.98

 

 

 

31. A OUTRA MARGEM[20]

 

 

"Tudo é inconsubstancial,

tudo é vazio.

Trabalhai com perseverança

pela vossa libertação".

 

 

Sabedoria de densas lutas interiores

pelas veredas da Plenitude sem Extinção,

queimando anos,

entre jejuns, penitências e meditações,

até aniquilar todo Desejo.

Traspassar

o eu individual e empírico

(pura ilusão)

rumo a um Nada

In-finito,

Eterno,

Originário,

sem-Nome,

sem-Conceito,

"a Outra Margem",

o Vazio.

O mais importante Combate

de toda a "tua" VIDA,

treinada,

continuamente,

em renúncias

e aberturas,

até conseguir,

por fim!

apreender,

pensar,

dizer,

fazer

o justo

(just do it!),

não algo mais,

nem algo menos.

A Verdade

como total precisão

de VIDA.

LIBERTAÇÃO:

simplesmente (?)

fazer isso mesmo

que deves realizar,

aqui e agora.

Não amanhã.

Não antes.

Nem mais,

nem menos.

Presente Contínuo,

sem futura nem pretérita traição.

Ser

não sendo.

Emergência

do Todo

no Nada.

Consciência Pura.

E,

no entanto,

por isso mesmo,

absoluta Compaixão universal.

 

 

 

la habana

20.02.97

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

32. SABEDORIA TAOÍSTA[21]

 

 

 

"@s que sabem não falam,

@s que falam não sabem".

 

(LAO-TSÉ)

 

 

 

manágua

08.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

33. O HUMANISTA CHINÊS

 

 

Nascido

n@s de baixo,

portanto,

provavelmente,

honesto,

VIDA e letras,

livros e trabalho manual

a conjugar,

em disciplinado estudo,

entrelaçando

observação,

silêncio

e obsequioso sorriso

(benévolo?).

Confúcio,

Harmonia

entre Céu e Terra,

Educação,

Educação

e mais Educação,

venerando antepassados,

Cultura,

Música,

Literatura,

História

(com Exercício Físico).

Iluminado Pedagogo

dos mil e um ensinamentos,

obter o Melhor

da essência humana

(existe?).

Ensinar é uma Arte

que até

à Ordem Cósmica e Social,

uma mesma coisa,

nos conduz.

Ilustração chinesa

do ontem,

hoje,

há pouco,

com Mao e Livro Vermelho

em catadupa

de Revolução Cultural.

Cuidado,

Filósofo Confúcio!

Também

o revolucionário

em lastro conservador

se metamorfoseia.

Vejo,

junto de ti,

como corvos

esvoaçando,

milhares

e

milhares

e

milhares

e

milhares

de obedientes funcionários,

aproveitados pelo Poder de Sempre

(institucionalizar:

não é a melhor maneira

de acabar com algo?),

a Harmonia e a Paz

de tod@s e tudo,

agora e sempre

como um egrégio tirano Mandarim Colectivo,

o multiforme Estado,

Omni-potente,

sobre milhões de cabeças,

ingénuas,

inocentes,

serviçais,

desprevenidas,

sentado!

 

 

 

manágua

08.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

34. O ÁRABE AUTO-DIDACTA

 

 

 

 

Ir-musul-mano

Abentofail,

filó-sofo auto-didacta,

médico holístico,

místico peregrino,

uma nova sabedoria

me/nos abriste,

como valioso vinho escanceado,

arábiga loucura poética clássica.

Testemunha,

lá nas minhas juvenis ânsias,

de Submersão In-finita,

Santa Espeleologia,

a deslizar-se

num apaixonante

Voo Delta

do Espírito Livre,

lúcida Demência,

antropo-lógica Alquimia interior,

Yin-Yang circulantes,

Economia da Palavra/Silêncio,

terremoto íntimo,

psico-lógico,

trans-pessoal.

Fogo-que-não-consome,

Origem/Crisol de Transformações,

Verdade que toma conta de nós,

mais forte do que o nosso próprio ego.

Não é possível

continuar a

negar a Evidência,

ainda que as Mil Vozes

do Engano Con-sentido,

impudicamente con-sensuado,

para "viverem"

em segurança

(portanto, não livres!)

em sociedade hipócrita,

fatalmente,

ignorantes,

condenaram-te.

FUGA MUNDI !!!!!!!!!!

 

manágua,

08.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

35. O APÓSTOLO HINDÚ

 

 

Espírito Grande,

Corpo pequeno,

Mahatma Gandhi,

radical profeta

da Não-Violência,

da Não-Co-oper-ação,

da Objecção de Consciência,

em VIDA permanente,

em Universal Comum-Unidade.

Tod@s somos Irmãs/ãs!

De novos sendeiros

hinduísta reformador,

por evangélico Sermão da Montanha

seduzido,

cristão de facto,

fabricante de um Mundo Novo

em Ahimsa y Satyagraha.

Trabalhar com as mãos

(um Fuso,

o teu meio de produção),

reivindicativo silêncio,

bengala nua,

jejum combativo,

insigne Força Moral

em factos políticos,

anti-maquiavélicos,

sobretudo

(Meios e Fins

em total coerência

articulados:

a Ética como Política,

a Ética na Política,

a Política como Ética Colectiva).

Apóstolo ecuménico

em práxis sitemática,

paixão de Mudança,

transformando Conteúdos e Formas,

inimaginavelmente criador

(a Imaginação ao Poder!):

Revolução = Criatividade Permanente.

Alter-Natividade,

Vítima de Orto-doxos,

a Paz como VIDA,

como Caminho,

como Método,

a Paz,

envolvida com Justiça, Dignidade e Direitos Humanos.

Místico prático da Índia,

quem

tuas pegadas,

no próximo Milénio,

pro-seguirá?

 

 

 

manágua

04.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

36. UM QUILOMBO CHAMADO LIBERDADE[22]

 

 

Zumbí

de Palmares,

zum-bido

de Auto-nomia,

u-topia terrenal,

uma nova sociedade,

autogestionária,

onde coubessem

(e continuem cabendo!)

Negr@s e Branc@s,

Índi@s e Mulheres,

Pobres e Explorad@s,

Camponeses/as e Sub-urban@s,

Periféric@s.

Esperança

de Negro

vestida,

porque,

para @s Ácratas,

igualmente o Futuro é Negro.

Libertário libertador,

onde o Sonho

continua sendo possível,

onde a Terra é fecunda Mãe

e onde o Corpo

ginga em capoeira,

que isso é,

precisamente,

a VIDA Eterna.

Deus

também

é

Negr@!

 

 

 

manágua

03.03.98

37. O MÁRTIR NEGRO

 

 

 

MARTIN,

d@ negr@ Liberdade,

d@ negr@ Diferença,

d@ negr@ Fraternidade/Sororidade.

 

LUTHER

d@ branc@ não mais Opressão,

d@ branc@ não mais Des-Igualdade,

d@ branc@ não mais Im-Punidade.

 

KING

negr@, branc@, mundo:

 

 

EVANGELHO

 

É

 

COMUNIDADE

 

EM

 

LIVRE

 

DIVERSIDADE!

 

 

 

manágua

04.03.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

38. INDÍGENAS REBELDES[23]

 

 

Tupac Amaru,

Diriangén,

Juan Chalimín,

Marçal Guaraní,

Enriquillo,

Juana Tun e Vicente Menchú,

Benjamín Didincué

e outr@s milhões mais,

caíd@s,

porém,

firmes,

em pé,

na caminhada do Povo

Indo-americano.

Mártires

Ameríndi@s,

mostrando

Resistência

e Revolução.

Nunca resignar-se,

nem co-operar

com o Opressor,

lutar com armas

ou com a palavra,

ou com ambas coisas ao mesmo tempo!

Mas sempre,

sempre,

com a própria VIDA

e o seu testemunho

na mão,

em prol de um mundo alter-nativo,

sem escrav@s,

e com terras,

onde tod@s

sejamos

perdidamente iguais

nas nossas múltiplas diferenças.

Caminhantes,

pelo Espírito

sus-pirando,

e construindo,

do/no Deus da Vida

de um Novo Edém

jardineir@s:

com/como

o

Vento,

Pur@s,

Livres!

 

 

 

manágua

06.04.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

39. PACHAMAMA

 

 

NATUREZA

espezinhada,

oprimida,

assassinada,

lentamente,

desprezada,

espécies

aos milhares

desaparecidas,

em Modos de Produção

violentos,

dualistas,

"neutrais",

conquistadores

do Progresso

e da Civilização,

da Ciência,

Tecnologia

e Bem-Estar.

Mãe

vendida aos pedaços,

em gado,

para hamburgueres,

da omni-presente

McDonald's & Cia. (CIA).

Fronteira agrícola

em expansão,

cortando árvores,

sagradas,

oxigenadoras,

VIDA

pisada

pela triunfante Morte

do voraz Dólar

e dos seus capitalistas adoradores,

sem que,

egoístas,

@s seus/suas net@s,

lhes importem

(muito menos @s seus/suas bisnet@s e tataranet@s):

que sujos ares,

pois,

"respirarão",

em que merda de rios

banho tomarão,

em que mares

poluídos

de petróleos, plásticos e esgotos,

mergulharão,

onde o lixo

enterrarão

(e o urânio radiactivo),

que cancros de pele,

sem já capa de ozônio,

ganharão,

que inundações

e queimas

de Niñ@s

terão,

que comida-lixo

(cancerígena)

engulirão,

que espécies

de Flora e Fauna

sobrevivirão?

Pachamama,

Mãe-Terra,

VIDA

procurando

Ressurreição,

serão finalmente

as nossas Irmãs Baratas

a Espécie Dominante,

o

Futuro

da

Evolução?

 

 

 

manágua

06.04.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ADDENDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANÓNIMOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

40. MULHER ANÓNIMA

 

 

Hiper-trabalhadora,

desde o berço,

relegada,

renegada,

multi-formemente

prostituída,

por sexismos

androcêntricos,

milenários,

cavernícolas,

Mulher-Objecto

de hipócritos louvores,

Mães,

Irmãs,

Esposas/Companheiras,

Filhas,

Amigas,

em Caminho Firme

a um Mundo Novo,

Nosso,

Alter-nativo,

Diferente,

onde tod@s

UM/UMA só

sejamos,

Homens/Mulheres,

Mulheres/Homens,

Masculinos/Femininos,

Femininos/Masculinos,

Andróginos (simbólicos),

sem patriarcalismos,

nem matriarcalismos,

lutando por ser

na Diferença Iguais,

Diversos Iguais

com Direitos

(e Esquerdos)

com-partilhados.

Mulher,

Sorriso,

Sonho-Ideal,

Gratuidade,

Doação,

Esperança,

Simplicidade,

Terra,

Cosmos,

VIDA.

Acorda

Irmã:

Deus

também

é

Mulher!

 

 

 

manágua

08.03.98

(Dia Internacional

da Mulher Trabalhadora)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

41. TABÚ[24]

 

 

Cala-te!

Silêncio!

Não fales!

Grito afogado,

olhar furtivo,

gesto reprimido,

mão sem encontro,

pés agrilhoados,

para sempre!

Querer sussurrar,

dialogar,

confessar:

"AMO-TE!",

e não poder,

não atrever-se,

auto-censurar-se:

É PROIBIDO!

Sê-lo,

sem o mostrar.

À margem,

ocultada,

clandestina entre os clandestinos.

Ser mulher,

também assim,

amando,

platónica

ou/e

sexualmente,

gratuidade,

entrega,

paixão,

a fundo.

Muitas feridas,

cicatrizes de longo prazo.

Sonhos.

Esperanças.

Suspiros.

Correspondida

só na sombra,

sem poder despertar

nunca suspeitas,

nunca!,

amar escondendo-se,

tremendo fogo interior,

arder sem chamas.

Cala-te!

Vai-te embora!

TU NÃO EXISTES!!!!!!!

 

 

 

salamanca

30.05.95

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRILOGIA GERACIONAL

(DEDICATÓRIAS)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

42. ANÓNIMA ANCIANIDADE[25]

 

 

Avôós,

da VIDA

plen@s de sabedoria,

generos@s,

de carinho

acumulad@s,

sempre bons/boas,

mais!

hiper-bons/boas.

Duramente lutaram,

tentando oferecer-nos

um Mundo Melhor.

Nos nossos corações

vocês

são

imortais:

eternamente,

Avôós,

sempre!

 

 

 

manágua

06.04.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

43. ANÓNIMA JUVENTUDE[26]

 

Bem-aventurada inoportuna

Ingenuidade imprudente,

querendo inventar algo de novo,

algo voss@,

desejando mudar o mundo,

podre,

(ou mudar de mundo?),

insubmiss@s,

partindo

espontaneamente

a Alma Colectiva

por um Ideal,

anelando Fraternidade-Sororidade,

Comum-Unidade,

Comum-ic-ação,

Companheir@s

do Presente-Futuro.

Dar tudo,

absolutamente tudo,

gratuita,

generosamente

(com egoísmo inclusivé!),

mexer,

mexer-se

e voltar a querer mexer

(com) o mundo,

que resiste a mudanças,

por causa de uns quantos poderosos

e muitos pre-juízos.

Porém,

o mundo

altera-se.

Por favor,

Jovens,

não se enquadrem:

Portem-se mal!

 

 

 

manágua

06.04.98

44. ANÓNIMA INFÂNCIA[27]

 

 

Etariamente

subjugad@s,

@s mais oprimid@s

entre @s human@s oprimid@s

(pois

em baixo,

só ficam

o gato e o rato

e...).

Querid@s,

muitos cumprimentos

de tod@s @s excluid@s

da Terra,

de todos os tempos,

de todos os espaços!

Na vossa divina forte debilidade,

sem dúvida,

simbolizais

vós

@s mais revolucionári@s

d@s Revolucionári@s,

porque

vós

sois o Possível

e o Possível

é,

com licença!

multi-formemente

mais esplêndido

que o estreito,

mesquinho,

e terco

"real"!

 

 

 

manágua

06.04.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II. ENSAIO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                 “Não ser pragmático

não significa não ser programático:

há que conjugar adequadamente

política, ética e utopia”.

PEDRO CASALDÁLIGA

 

 

  1. MÍSTICA E REVOLUÇÃO: NÃO HÁ FRONTEIRAS!

 

(INTRODUÇÃO GERAL)

 

 

        Quase sempre, historicamente, opôs-se ‘Mística’ a ‘Revolução’.

 

        A primeira era considerada algo interior, intimista, próprio da pessoa humana. Era, pejorativamente, qualificada de evasiva, individualista, idealista. No aspecto positivo, dizia-se que era o realmente profundo (“espeleologia interior”), enquanto o resto era visto como superficial, exterior.

 

        Dizia-se até que reformular o exterior, o político, sem uma mudança interior prévia,

era contribuir para que a opressão continuasse, agora com outros sujeitos à frente, mas que nada tinha mudado: “o mesmo cão, com diferentes açaimes”...

 

        A segunda era julgada como sendo o verdadeiramente válido, pois transformava o que era importante, as estruturas económicas e políticas. Se as pessoas morriam de fome e eram oprimidas por estruturas políticas, era um luxo de burgueses procurar uma “revolução interior” quando a transformação social tornava-se tão urgente.

 

        Aliás, com a mudança de estruturas superar-se-iam igualmente as propostas individualistas, egoístas e egocéntricas. A prática social era, pois, uma escola de virtudes como a solidariedade, a justiça social, a igualdade. Quem lutava socialmente por esses valores estava a fazer a melhor das suas “revoluções interiores”.

 

        No entanto, o final do milénio foi um tempo de crise dos dualismos e de procura de unidades, convergências e confluências. Tratava-se de um “sinal dos tempos” significativo. Pouco a pouco começou a suspeita forte de que existia uma conexão intrínseca entre ambas realidades.

 

        Melhor dito, a aproximação epistemológica à questão revela-nos que se trata de um falso dilema. Ou seja, uma coisa sem a outra, a uni-direccionalidade, é falso. O verdadeiro é tratar de ambas coisas como se fossem uma só. Quer dizer, mística e revolução não são senão uma só coisa, formas diferentes de dizer o mesmo. 

 

        Tudo isto parece-nos um grande avanço e em direcção a uma formulação mais realista, ainda que a realidade seja complexa. Os dualismos são mais claros, mas são mais analíticos, mais próprios de “tipos ideais”, para utilizar uma expressão do sociólogo Max Weber, mais “construções mentais”(para dominar a realidade) do que verdadeiras descrições do real.

 

        Portanto, a verdade estaria em como procurar essa unidade do interior e do social, devido a que nós, os seres humanos, somos integrais, holísticos (ou, pelo menos, apontamos para isso) e não uma mera somatória de partes divididas.

 

        Se isto assim é, teríamos que o interior e o social não são senão dois momentos de um mesmo processo: o processo da mudança total. Ou há realmente um processo sócio-histórico-biográfico que transforma, que “queima” lastro acumulado, resistencias escleróticas e perversões estaticistas e/ou mecanicistas, ou então não há verdadeiramente mudança e trata-se só de uma “transformaçãozinha”.

 

        E o problema é que as “transformaçõezinhas” esgostam-se em si próprias e geram forças antagónicas. A nossa proposta é decidamente a favor duma grande mudança, de uma transformação total de esquemas mentais e culturais articulada com práticas sociais, económicas e políticas (opressoras e exploradoras ou excluentes). Se existe resignação em qualquer destes níveis, é muito difícil que se possa dar uma mudança real.

 

        Afirmamos decididamente uma transformação da realidade. Somos maximalistas. Não queremos satisfazer-nos mesquinhamente com pseudo-mudanças ou discursos populistas que enganam as massas. Queremos construir um Homem e uma Mulher novos/a que mostrem outra maneira de equacionar os problemas. Krishnamurti mostrou-nos muito bem que o egocentrismo (produto de um ego divisivo e medroso) é uma das principais causas da infelicidade e escravidão dos seres humanos.

 

        Devemos, porém, de uma maneira realista, reflectir também perante os condicionamentos que provocam semelhante mente resignada, medrosa e conservadora do e do seu próprio “status quo”.

 

        Somos da opinião de que o Sistema é uma totalidade articulada que age em todos os níveis: económico, político, social, cultural, religioso. É evidente que o totalitarismo de Mercado que sofremos é uma imposição dos centros mundiais de circulação de capitais, de informação privilegiada e de construção de desejos.

 

        No entanto, a pior das colonizações deste Sistema é a mental. Há um discurso sub-reptício nos meios de (in)comunicação que transmitem a ideia do ‘pensamento único’ e da inexistencia da uma alternatividade a isto. O pior não é então a expropriação dos/as empobrecidos/as, mas a sua resignação. Resignar-se é empobrecer a mente e o coração. É pensar que só existe o que temos à frente do nosso nariz.

 

        Mas o real não é estático, e sim processual. É resultado de um desenvolvimento sócio-histórico, de enorme pluri-causalidade. Muitas vezes a pluri-causalidade é unidireccional e isto significa que o nosso mundo anda como anda: rumo a uma globalização neoliberal, onde a grande parte da humanidad é excluida. Isto quer dizer que a humanidade está governada por esquemas desigualitários e quantitativistas.

 

        Portanto, a revolução social necesita também de uma mudança interior de objectivos, de classe social, consciência de género, étnica, etária... Mas – e vem aqui uma crítica que julgamos fundamental – não há um antes e um depois. Porque a revolução não começa por nehum lugar em especial. Qualquer ponto de partida é válido. O que importa é que se faça.

 

        Alguns sisudos intelectuais de esquerda querem-nos convencer que não existem actualmente condições para uma revolução mundial. Isto é coisa que devemos discutir. Depende do que compreendemos por ‘revolução mundial’. Se estamos presos ao velho paradigma leninista, voluntarista, de revolucionários/as professionais, que procuram a tomada de poder a qualquer preço, para instalar a revolução a partir de cima, a partir das instituições, pensamos que não chegaremos a nenhuma parte. A experiência histórica já mostrou a debilidade duma tal formulação[28].

 

        Mas se revolução não é “maquiavelismo organizacional” à procura de um futuro de salvação, mas um processo que já está aí, e ao qual nos unimos a partir do nosso presente (sem ser atraiçoados por um passado nem por um futuro: existem ambos?; de todas as formas, que significa ‘existir’?) será possível avançar no ritmo revolucionário das coisas.

 

        Precisamos para isto de critérios de discernimento. Ainda que a nivel mundial se dá um ritmo dominante (imposto), existem também outros ritmos, mais anuentes com o ecológico-humano, ainda que nos parecem mais subterrâneos e clandestinos. Mas talvez a “verdadeira” história, a que leva ao “verdadeiro”progresso, é micro-cósmica, quântica, subversiva, subterrânea. Inclusive, pode ser plural. Porque é que tem que se dar uma  só caminhada? Porque é que tem que haver uma só alternativa? Em ambos os casos, somos prisioneiros de uma mente estreita.

 

        Achamos que uma verdadeira revolução interior nos nossos dias, autenticamente mística, conduz aos seguintes resultados: superação do consumismo; pobreza e humildade como bandeiras subjectivas alternativas; não acumular; procurar o desapego interior do nosso eu, dos nossos medos, inseguranças e defesas; libertar-nos progressivamente da tirania do prazer, dinheiro, poder, fama; procura da solidariedade interior com todo o Cosmos e com toda forma de vida; sentirmo-nos um/a com o Cosmos e com a Humanidade, especialmente com a Humanidade que sofre; experimentar a contemplação gratuita e o amor auto-transformador; encontrar-se com a Fonte Pura Originária; superar tantos pré-conceitos de classe, género, etnia, geração, civilização, ecologia, nacionalismo...; adoptar uma maneira de viver não-violenta e activa, como utopia da relação total; ser promotores/as da “esperança contra toda esperança” em tempos de “exílio” e “deserto”; implementação da “revolução do quotidiano”: fá-lo tu próprio!; superação do autoritarismo, verticalismo e vanguardismo[29]; etc.

 

        Por sua parte, a revolução social deve-nos levar ao seguinte: encontro com os/as mais excluídos/as por este sistema de morte e procura inter-solidária de novos caminhos mais igualitários, com as suas práticas respectivas; desenvolvimento de práticas económicas alternativas, ainda que informais; luta em organizações de trabalhadores/as não burocratizadas; participação activa na Sociedade Civil, procurando uma maior conscientização alternativa, organização e mobilização dela; participação em (ou criação de) espaços alternativos de poder, não autoritários, flexíveis, suaves, participativos..., quer dizer, verdadeiramente “democráticos a partir de baixo”; procura da “acção

directa”; incidência nas estruturas culturais, educativas, comunicativas, com valores alternativos e “criando opinião alternativa”; prática do Macro-ecumenismo, com a importância das religiões para a promoção da Paz, Justiça e Ecologia mundiais; etc.

 

        A “lógica do possível” dar-nos-á aquelas lutas onde, em cada lugar, é possível actuar. Requer-se, para isso, de um verdadeiro “olfato alternativo”. Mas, não vale tudo!

 

        O que há que salientar é que não existe uma luta interior, mística, e uma revolução exterior, social (e eclesial), mas um mesmo espaço sem fronteiras. É algo característico da “revolução holística” (epistemológica e ético-política), na qual nos encontramos imers@s já neste fim de milénio, é que “não há fronteiras”. As ‘fronteiras’ são criação da mente ignorante, medrosa e com insegurança.

 

        Seria interessante então estudar as causas de porquê existem estas fronteiras. Isto supera as nossas modestas reflexões. Mas achamos basicamente que obedecem a uma cosmovisão onde predominam os interesses individuais e mesquinhos, os medos (porque se vive dominando e o dominador teme a insurreição do/a oprimido/a), as inseguranças perante a realidade, especialmente a d@ outro/a, a lógica do poder[30]... Em qualquer caso, as fronteiras revelam-nos personalidades ignorantes e de baixo nível ético.

 

        Por conseguinte, estamos chamad@s, aceitando as armadilhas da linguagem[31] dualista, frente à globalização neoliberal, a uma “revolução holística”, onde a mística, ou é revolucionária ou simplesmente não é. Ou melhor, onde falar de “mística revolucionária” seria redundância. Por isso, como diz a conhecida canção centro-americana de Ricardo Arjona, “é melhor agir”.

 

 

manágua

10.08.1998

(24° aniversário da morte de frei Tito de Alencar,

dominicano brasileiro, torturado até o suicídio).

 

  1. REVOLUÇÃO=VIOLÊNCIA?

 

 

        Há muita gente que se assusta quando ouve falar de ‘Revolução’. E é que se acha muito difundida a convicção (até pode ser que faça parte do Inconsciente Colectivo!) de que ‘Revolução’ é um sinónimo de ‘violência’, ‘guerra’, ‘sangue’, ‘assassinatos’, ‘destruição’, ‘fogo’, ‘morte’.

 

        É certo que muitas revoluções chegaram até essas consequências, ainda que não se propuseram isso. No entanto, isto é facilmente compreensível. Os que representam o poder dominante não são nunca umas “pombinhas inocentes”, dispostas a deixar generosamente muitos dos seus privilégios acumulados. Pelo contrário, sempre resistem ferozmente e, com excepção de uma boa quantidade de cínicos, estão profundamente auto-convencidos de que esses supostos privilégios não são senão “justos direitos”, conseguidos meritoriamente ao longo dos anos. Certamente, se isto é assim, vêem a quem os quer tirar do lugar como uns/umas fabricantes do Caos, violent@s, irreverentes e subversiv@s da Ordem Estabelecida, que é eterna, que querem mudar pela força, de um modo ilegal e injusto.

 

        Achamos que, no fundo, trata-se de duas percepções diferentes da realidade, dois diagnósticos completamente antagónicos. Assim, para ‘@s de baixo’, foram os poderosos os que estabeleceram uma (des)ordem injusta, violenta por natureza (violência estrutural), ainda que não pareça (intervém aqui, com um papel muito importante, a noção de consensualidade, assim como a capacidade pluriforme de legitimação da dita Ordem). Por isso, para ‘@s de baixo’, os privilégios dos poderosos mostram-se-lhes como insultantes para o resto da Humanidade, que é, como é sabido, a maioria das pessoas. Por isso, como não se resignam, desejam mudar esta Ordem desigualitária.

 

        E, como ‘os de cima’ não querem ceder nada (têm, entre outras coisas, medo de que, se cedem alguma coisa, os olhem como débeis e então exijam-lhes mais e mais, até deixá-los sem nenhum desses privilégios), resistem e aplicam os mecanismos (ordinários) do poder perante @s intrus@s violent@s. Além disso pensam: “Por que é que temos que andar com tantos escrúpulos com esses/as ‘caótic@s’?”.

 

        É verdade que existem alguns poderosos menos medrosos, talvez um pouco mais inteligentes, mais hábeis, mais políticos ou mais cínicos, seja como for, que sabem como ceder alguma coisa para que tudo continue igual. É o jogo do Poder. Neste caso, parece que o fantasma da Violência foi afastado.

 

        Para ‘os de cima’, em geral, os seus privilégios são estritamente sagrados, invioláveis, intocáveis, absolutos. Acreditam que os conseguiram por méritos próprios. São conscientes de que o mundo é hierarquicamente desigual, mas isso é o correcto, porque existem pessoas que “valem” mais do que outras. Confunde-se então o ‘ser’ com o ‘dever ser’. O injusto é que tod@s estejam igualmente valorizad@s quando nem tod@s “valem” o mesmo.

 

        Portanto, quando ‘@s de baixo’ procuram conseguir a igualdade ou uma maior igualdade, são tid@s como transgressores/as da Ordem, introdutores/as do Caos, agressiv@s e violent@s, porque procuram maltratá-los, expulsá-los e até matá-los. Por isso, ‘os de cima’ têm medo, muito medo, e defendem-se. Falam de legítima defesa. Sentem-se vítimas da injustiça. E actuam em consequência, utilizando todos os mecanismos que o Poder lhes dá, legais... ou ilegais. O fim justifica os meios. São excelentes alunos do Maquiavel. Ao fim e ao cabo, dizem, também “@s caótic@s” fazem o mesmo...

 

        Em resumo, e para um observador “imparcial”, joga-se nos dois grupos com o esquema vítima-vitimário, mudando unicamente em cada caso os sujeitos. Cada um dos grupos sente-se vítima e qualifica de vitimador ao outro.

 

        (Acontece curiosamente o mesmo a nível religioso. @s “noss@s” deus/es/as e a “nossa” religião são sempre @s vítimas e os outr@s @s vitimadores/as. Não serve aqui o argumento “objectivo”de detectar quem é o primeiro que agride –fisicamente-, pois o outro sempre dirá que sentiu-se antes agredido moralmente. Repito, o esquema é: ‘eu/nós somos @s vítimas-aqueles/as são @s vitimadores/as).

 

        É evidente que não existe a neutralidade neste assunto e há que tomar partido. Creio, pessoalmente, que existe uma profunda violência estrutural neste mundo, que é em geral a que opõe ‘os de cima’ (os que possuem capital e poder no capitalismo neoliberal) a ‘@s de baixo’ (super-explorad@s, desempregad@s, excluíd@s). Uns têm (quase) todo o poder institucional e outr@s não possuem (quase) nada. Além disso, ‘os de cima’ dominam o Discurso, desde a Escola até os Meios de Comunicação. E não só existem poderes económicos dominantes, mas também a nível sócio-cultural (poder dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos “civilizados”sobre os indígenas, d@s adult@s sobre as crianças, etc.). Tudo isto não só soma, mas até multiplica. Estas estruturas de dominação permanecem, ainda que mudem os sujeitos que as representam e exercem.

 

        Portanto, parece lógico pensar que, se isto é assim, toda revolução, ou toda tentativa de mudança, será necessariamente violenta. Porque ninguém, ou quase ninguém, cede de livre vontade dos seus privilégios (as excepções confirmam a regra). Isto parece  evidente e apela-se por isso à experiência histórica.

 

        Gostariamos, no entanto, de discutir esta suposta evidência.

 

        Não se nega que, na maior parte das vezes, isto tenha sido assim historicamente. Ou seja, que se tenha utilizado a chamada violência revolucionária. Porém, o que queremos é duvidar desta suposta lei de necessidade histórica. Não queremos esquecer também que o Poder exerce resistência a mudar de maneira substancial. O que desejamos pôr em dúvida é que se consigam mudanças substanciais necessariamente a través da utilização da violência (‘armas’, ‘sangue’, ‘assassinatos’, ‘destruição física do adversário-inimigo’...). Existem exemplos históricos do contrário.

 

        Em realidade, é  reconhecer que sempre resulta algo de “violento” qualquer tentativa de mudança, especialmente se a dominação foi duradoira e sumamente injusta. Isto implica ir em contra de uma pre-suposta “ordem natural”, que o não é, mas que “funciona” desde há uns bons tempos (às vezes inclusive séculos). Existem hábitos mentais, sociais e culturais introjectados secularmente, uma espécie de “sentido comum” (utilizando a expressão de António Gramsci), estabelecido historicamente, e custa mudar tudo isto. Ainda que seja para ir realmente até o que é “natural”. Só que o “natural” parece agora francamente “contra-natural” (ou “anti-natural”), ainda que seja “construído”. De todas as formas, sempre se vai “contra-corrente”.

 

        De uma maneira mais sofisticada, pode argumentar-se também que não sempre uma revolução é sangrenta, mas que isso não depende de nós. Implica um ordem especial dos acontecimentos, uma tal sequência dos sucessos que não seja necessária a violência para que se produzam transformações. Numa palavra, não controlamos totalmente os acontecimentos e, sobretudo, eles resultaram assim.

 

        Parece-me certo esta última afirmação, pois existem muitos elementos que não controlamos (num processo macro-social estão presentes muitas variáveis em acção), que inter-actuam produzindo efeitos secundários não-intencionais inesperados. Por isso, a História pode chegar a ser incerta, imprevisível. Mas, se isto é assim, aplicar-se-ia também aos que conscientemente utilizam a via armada para conseguir os seus fins. Ou seja, que poderia haver uma saída não-violenta ao conflito. Ainda de que o normal é que a violência gere violência.

 

        Trata-se igualmente de uma questão de prazos. Pode ser que a violência pareça eficaz a curto prazo, de uma maneira imediata. Mas, é também eficaz a meio e a longo prazo? Não são as revoluções a meio e a longo prazo as mais intensas e permanentes?

 

        Certamente, ninguém pode controlar os efeitos secundários da imprevisível “Caixa de Pandora” dos ventos revolucionários. O que aqui defendemos é a racionalidade consciente de uma ‘revolução não-violenta’.

 

        Não vamos entrar aqui em pormenores tácticos (já muito se escreveu sobre isto, que entra dentro do epígrafe geral de ‘resolução não-violenta de conflitos’). Mas achamos que é possível criar, com imaginação, em cada caso, outras formas de luta que não impliquem, de uma maneira fatal, a utilização de espingardas, metralhadoras, tanques (mísseis, agora), para resolver os conflitos. De todas as formas, partimos sempre do facto de que existe na base uma violência estrutural e achamos que sabemos diferençar bem entre esta violência e a violência revolucionária (são efectivamente duas violências diferentes: uma, que procura oprimir; outra, que procura libertar. Mas ambas são violência e tendem a gerar um estado permanente de violência. E, às vezes, o remédio pode ser pior do que a doença...).

 

        É urgente semear na Humanidade uma imaginação alternativa, descobrindo pouco a pouco formas não-violentas, mais pacíficas e humanas, de resolver as lutas sociais, económicas, políticas e culturais. Isto não quer dizer que, na prática, sejamos capazes sempre de o conseguir. Mas, teoricamente, é possível. De todas as formas, queremos deixar aqui constância de que existem muitas maneiras imaginativas de lutar para transformar as coisas, sem ter que utilizar necessariamente as armas como uma fatalidade. É este o nosso grande desafio. E defendemos também que as armas não têm que ser a etapa final necessária de um processo revolucionário, que poderia ter começado num princípio com lutas sociais “pacíficas”.

 

        A nossa convicção é que as armas podem servir para defendernos e para conseguir talvez mudanças a curto prazo, em caso de êxito (o qual, como é natural, nem sempre é evidente), mas não para fazer uma autêntica revolução, que mude substancialmente as coisas.

 

        Assim, a ‘revolução não-violenta’ pode ser não só mais ética (coerência meios-fins), mas também mais efectiva (ainda que mais lenta, sobretudo a meio e longo prazo, o que também não exclui o curto prazo). E é que pode mudar as coisas mais a fundo e de fundo, mais do que o imediatismo da luta armada. Normalmente, o que é conseguido pelas armas, deve ser mantido pelas armas. As armas são autoritárias, não dialogam. É o Poder (e o poder masculino perverso), na sua máxima expressão de domínio. Portanto, só quem não tem medo (ou aprendeu a controlá-lo) à morte, à tortura, à má fama, à marginalização, a perder privilégios, etc., é quem pode ser um/a autêntic@ “combatente da não-violência”. De todas as formas, como em todos os domínios da vida, há as suas graduações...

 

        E isto sem esquecer que as armas, em quanto comércio mundial escandaloso, matam antes de disparar. Milhões e milhões de dólares são gastos diariamente para comprá-las em todo o mundo, subtraindo esse dinheiro da alimentação, saúde, educação, moradia, etc., das maiorias mundiais. Ou então são utilizadas para reprimir as suas exigências e manter assim a opressão multiforme[32].

 

        @s revolucionários não-violentos são semelhantes aos/às guerrilheir@s. Sem armas, mas a sua estratégia é muito parecida em alguns pontos. São também pouc@s, mas isso não tem nada de estranho: achamos que Bakunin tinha razão quando pensava que eram as minorias as que moviam a História. As minorias abraâmicas são as “vanguardas” revolucionárias. Depois vem o povo. No entanto, as minorias transformadoras têm que relacionar-se pedagogicamente com o povo e emergir dele. @s não-violent@s possuem a força da Verdade (Gandhi). Ou seja, a força da Realidade das Coisas. Uma força que pode chegar a ser mais efectiva  do que as próprias armas que matam.

 

        Mas, para que tenha êxito, a revolução não-violenta precisa de uma cidadania consciente com impacto nas ditas lutas alternativas e que tenham descoberto bem a razão (verdade) da reivindicação. Isto implica muita transparência ou diafanidade. A luta não-violenta é, por cima de tudo, uma luta cultural, em e a partir das consciências e da convicção. No entanto, como são as consciências individuais as que disparam, é possível mudar de atitudes[33]. Mais do que vencer, a não-violência procura con-vencer (Martin Luther King).

 

        A tudo isto pode-se objectar que é tudo muito bonito, que é teoricamente certo, eticamente correcto, mas que, na prática, é inviável, suicida, porque a realidade é mais complexa do que as nossas belas teorias.

 

        Podemos, no entanto, contra-objectar a isto dizendo que, ainda que seja certo que a realidade é complexa e existem efeitos secundários incontroláveis, pensamos que pode haver uma racionalidade e uma vontade política não-violenta e que pode chegar a ser efectiva, porque é disso mesmo que se trata. Pelo menos, é uma carta possivel a jogar em qualquer conflito social.

 

        Não é aqui o momento para pormenorizar as diversas tácticas não-violentas que se utilizaram ao longo da História (e utilizam-se cada dia), mas sim para ganhar consciência de que a revolução não-violenta (tal como Gandhi, Martin Luther King, muitas lutas de mulheres, etc., nos ensinaram) é a mais revolucionária de todas. Porque muda não só os conteúdos, mas também as formas.

 

        No entanto, precisamos “acreditar” nela. Sem “fé” não tem efectividade. A nossa esperança é que o século XXI seja, a pesar de tudo, um século de revoluções não-violentas, ou, pelo menos, mais pacíficas que as do século passado. Acreditamos no potencial enorme de uma Sociedade Civil Organizada (SCO), conscientizada e combativa. Pode conseguir-se muitíssimo. É, pois, importante que haja líderes revolucionári@s não-violent@s, mas é ainda mais importante que exista uma Sociedade Civil viva, organizada, articulada em redes inter-solidárias e treinada na resolução pacífica e não-violenta dos conflitos.

 

        Continuamos pessoalmente a ser socialistas, críticos e humanistas, e estamos totalmente convencidos de que a revolução não-violenta é a melhor metodologia ética e política para conseguir mudanças sociais radicais. A violência não compensa. A suposta mudança radical imediata da suposta revolução armada é só aparente e provisória. Mudança radical é uma tautologia. Não nos servem já as “transformaçõezinhas”: mudar alguma coisa, mudar as caras, não serve de muito. Há que ir ao fundo da questão, transformando as estruturas, as mentalidades e as mesmas metodologias de transformação.

 

        Finalmente, nenhuma revolução deixa de ter custos, materiais e humanos. Os custos da não-violência parecem-nos ser os mais baixos, os menos “custosos” para a maior parte da sociedade, especialmente para @s pobres.

 

        A revolução não-violenta é, mais do que nada, uma revolução pedagógica, no sentido mais amplo e profundo da palavra. E a revolução não começa amanhã. A revolução prova-se no hoje, no aqui e agora concretos, com as nossas acções quotidianas, pessoais, grupais e colectivas.

 

        De quê é que estamos, pois, à espera?

 

 

 

 

       

 

porto

09.01.99

salamanca

27.01.99

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. MÍSTICA, CIÊNCIA E ARTE

(INTRODUÇÃO  ‘PER MODUM DEFINITIONIS’)

 

 

* Mística = Síntese de insatisfação/plenitude, de procura/encontro, sempre permanente, nunca acabada. Transcendência/imanência (“transcender a partir de dentro”), um “estilo”de relacionar-se com o mundo e consigo próprio, negação e negação da negação, luta interior (pôr ordem democrática nos diferentes “eus” que nos habitam), auto-superação realista (ver mais à frente).

 

* Ciência = Procura de um conhecimento, mínima (ou maximamente) fundamentado e crítico com respeito às realidades (físicas e sociais) que nos rodeiam. Pretensão de análise formal e verificação/contrastação rigorosas, críticas e inter-subjectivas dos eventos , com método paradigmático. Procura de uma maneira minimamente “segura” de pensar, tentando conhecer realmente as coisas como são  e não as suas aparências (ideal grego). Conhecimento sempre relativo, aproximativo e provisório. Até aqui, a visão da ciência clássica. Hoje em dia: ciência da incerteza (ver mais à frente).

 

* Arte = “Iniciação” compartilhada. Re-criação estética da multiplicidade (com eco em outr@s, “a partir do ângulo estético” ) à luz da pluralidade do Belo, olhar “especial” e “inspirado” de tudo quanto nos rodeia, procurando Beleza exterior e interior (mas, o que é a Beleza? Subjectividade do conceito. Ver também mais à frente).

 

* Mística, ciência, arte = uma mesma procura pluri-forme. Superação radical

do antagonismo sujeito/objecto. Mística como um olhar profundo, direito ao coração da Realidade”, ao mais profundo do Ser. Aponta ao Mistério, à gratuitidade essencial das coisas. A Gratuitidade (o Vazio) no Centro, no núcleo da Realidade. Deus como a Gratuitidade Suprema.

       

        Mística, a Ciência Suprema, o Supremo Cohecimento, a Arte Suprema. Mística como coroamento da Filosofia, da Sabedoria. A Filosofia como auto-consciência da ciência. Mística como Amor-Que-Não-Se-Consome.

 

        Mística como Arte Interior que leva à Beleza das Belezas. Incorporação da Beleza do Cosmos como a sua superação (Aufhebung) em Deus mesmo.

 

        O Feio não é feio, tem a sua própria Verdade e a sua Beleza. Descobrir o Belo no Feio. “Descobrir a Buda no meio do esterco” (provérbio Zen). A flor mais bela, gratuita, no deserto, na montanha solitária, onde ninguém a verá, pura doação.

 

·        Hoje, a Ciência procura un conhecimento fundamentado, mas encontra-se com uma realidade quântica, incerta, “caótica”, cambiante, flexível, “suave”. Revolução epistémica e paradigmática = o mais profundo da realidade física é a “dança de Shiva” (F. Capra), o inter-câmbio contínuo (inter-relacionalidade) da energia omni-presente. Não existem partículas “substanciais”. “Nada é, tudo se transforma” (cfr. Heráclito). Ou melhor, o Ser é um contínuo transformar-se, em equilíbrios homeostáticos instáveis. Descobrir regularidades no Caos? Ou as regularidades são “postas” pela nossa mente? Há uma Mente Cósmica? Também a rege o princípio da incerteza? Provoca Ela o “colapso de onda” na realidade física? O que é “a” Realidade?

 

        A Mística também descobre que a Realidade não tem fundamento-em-si. Tudo é “original” e essencialmente gratuito. A partir desta Verdade “Fundamental”, tudo é coerência com caos. Aquela é a Verdade Primeira (Gratuitidade, Vazio). Esta, a Verdade Segunda (coerência/caos).

 

        Ignorância (‘ilusão’) = ficar na Verdade Segunda, na multi-plicidade das formas.

 

        Ideal = Que o cientista seja um místico, que o místico seja um cientista.

 

        * Mística, o “descanso” depois da criação artística, o Contemplativo depois do/no Activo.

 

        Semelhança da inspiração mística e da inspiração artística. Uma “loucura”, uma “mania”, para @s Antig@s.

 

        Da Acção à Contemplação, da Contemplação à Acção. Unidade/Síntese de Teoria e Práxis.

 

        Acção= o “germinar” do Contemplativo. Manancial. O desbordar, o transbordar, o Emergir. Acção ‘original’ (de origem), originária, emergente. “Poiesis”. “Auto-poesis”. O Activo não se contrapõe ao Contemplativo (outro dualismo a superar): é a sua expressão natural, originária e criativa. É a “não-acção” (‘wu-wei’) de Lao-tsé, espontânea, original y criativa. Mais “activa” que o activismo ocidental: des-finalizado, nervoso, consumista, imediatista, fragmentário.

 

        * Mística = Experimentar por si própri@, libertando-nos das ligaduras da Autoridade (Krishnamurti).

 

         MÍSTICA = AMAR (João Evangelista e João da + ), que é Gratuidade, Entrega, Dom, a Essência da Realidade. Silêncio que fala. Palavra sem Voz, que fala a gritos, que fala mais forte e intensamente que o mais poderoso dos gritos. Mais densidade.

 

        Mística é gritar, gritar a inconformidade radical com este mundo (sociedade capitalista globalizada neo-liberalmente). Mística é essencialmente Revolução Total, a partir d@s pobres e excluid@s

 

        Mas Mística é também: encontrar a felicidade a lavar pratos, a varrer, a lavar a ropa, a fazer limpeza; resistir ao consumismo; não deixar-se dominar pela Televisão; fazer jejum; ser humilde (mas nunca “humilhad@”); saber calar-se e esperar o momento oportuno; saber fazer silêncio interior; não acumulação; não controlo d@ outr@ (ciúmes, inveja, insegurança); não luxúria; não fama; saber estar “atrás da coluna”, como Santo Arsénio, procurando não sobressair nem ter protagonismos; crítica à “sociedade do êxito”..., etc.

 

        O um e o outro.

 

        Revolução Social e Revolução da Subjectividade.

 

        Revolução Total!

 

 

 

 

 

segóvia

18.01.99

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. MÍSTICA COMO VIVÊNCIA

 

 

        Mística é experiment-ação própria, pessoal, com o Absoluto, em profundidade, a fundo perdido, mais além da autoridade dos diferentes “gurus” espirituais. Quem não experimente por si própri@ a Vida, não é dign@ do apelativo de ‘místic@’.

 

        É atrever-se por si próprio, arriscar-se, mergulhar e nadar. Nenhum livro “ensina” a nadar. Também não a ser místic@. Ser inteligente é aprender a partir dos nossos erros (ou “horrores”) sistemáticos. Somente chega a ser místic@ quem se engana muitíssimas vezes... e realmente aprende a partir das suas próprias falhas (método de experimentação e prova).

 

        Sobre tudo, @ místic@ não é um/a teóric@, mas um/a prátic@ (ainda que seria de recomendar que possua uma boa base teórica: cfr. Juan de la Cruz). É alguém que procura (o que já encontrou: cfr. Agostinho de Hipona), que experimenta diferentes opções, que pesquisa, que vive a fundo, radicalmente. Serenar o corpo (importância da posição corporal), a respiração, a mente = uma única tarefa (Zen). Uma vivência integral.

 

        Porém, ser místic@ é também um dom, algo que surge no/do mais fundo de nós própri@s, como se não tivéssemos domínio nem controlo sobre ele. A partir de nós própri@s, ultrapassa-nos, supera-nos, vai mais além de nós mesm@s. Lutar para desembaraçar-nos dos obstáculos. Dom = saber esperar o momento oportuno, o kairós.

 

        @ místic@ cristão/ã experimenta intensamente a Trindade no seu próprio interior (“Deus, mais íntimo do que nós própri@s”: Agostinho). O Mestre Eckhart falava atrevidamente de criá-la (a Trindade) dentro de nós. Melhor diriamos: re-criá-la. Se Deus nos cria, também nós podemos re-criar a Deus. Algo de semelhante dizia Voltaire, mas num sentido mais pejorativo (comos criadores de ídolos).

 

        A Mística implica, por tanto, muita luta, muita renúncia, muito sacrifício, não é nenhum “caminho de rosas”. Precisa de muitas “assentadas”combativas/reivindicativas. Lutar para tirar os obstáculos. Não se trata de ganhar o Mistério à força, mas de remover os impedimentos para que esse Mistério surja ou advenha. Mas, em primeiro lugar, a Mística é alegre (nada de masoquismos!).

 

        Experimentar = estar atent@s, vigilantes, acordad@s, concentrad@s. Não dispers@s. Não é tensão, mas tão-pouco estar adormecid@s. No termo exacto, justo. Nem mais nem menos, nem à direita nem à esquerda, nem antes nem depois, nem à frente nem atrás, nem em cima nem em baixo: no ponto justo.

 

        Experimentar radicalmente o Presente. Não há mais do que um presente contínuo. Evitar a fuga para o futuro ou para o passado. Ambos são sempre correlativos ao presente.

 

        O passado é só passado a partir da perspectiva do presente. Por isso, nada muda tanto como o passado, como diz um amigo meu, Freddy Quezada. O futuro é para o presente, é uma projecção do hoje. Nunca é estático o presente. Em realidade, não “existe” o presente, porque o tempo não é substancial ( também não o é o espaço: uma pura correlação fluente, “dança cósmica de Shiva”). É um fluir permanente (Heráclito). Devemos “estar” no presente, com todas as consequências, sem “evasionismos”. Chegar a “sê-lo”. Aprofundar no presente, radicalizá-lo. Nunca “agarrá-lo”, mas “fluí-lo”. Não existe o “ser” compacto, imutável (contra Parménides). Se existe o “ser” (ou melhor, a realidade ou realidades) é num des-fazer-se e re-configurar-se permanente.

 

        Não “segurar-se” ao presente (=ignorância). Não agarrar-se a nada. Puro “des-apegar-se” para ‘ser’. ‘Ser’, não ‘ter’. Pura pobreza. Experimentá-la, vivê-la, no mais íntimo, como liberdade. Exige também pobreza exterior, simplicidade de vida, austeridade, não consumismo, luta pela justiça. Castidade (amor sem fronteiras) e obediência (ao projecto da Comunidade). Opção radical pel@s pobres, não fechar-se narcisisticamente em si própri@. Fluir é transformar, transformar-se, revolucionar, revolucionar-se. Revolução é Mística. Mística é Revolução.

 

        Vivenciar a mística (pleonasmo) é amar absolutamente, sem fronteiras, tudo, todos/as, inclusive aos/às inimig@s. Captar o sentido profundo, unitário, de todas as coisas. Holismo vivencial.

 

        É amar a Deus como Mistério, que se encontra no Fundo da realidade das realidades, transcendendo-as pessoalmente  a partir de dentro. No Fundo das coisas e das experiências humanas e sociais encontra-se Deus.

 

        (Mas não continues a ler mais! Se chegaste até aqui, vai, pratica! Experimenta! Fá-lo tu própri@, aqui e agora, sem deixá-lo para amanhã! Começa hoje mesmo! Amanhã já é tarde, demasiado tarde!).

 

 

 

 

lisboa

madrid

janeiro’99.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. AS MICRO-UTOPIAS

 

 

        As recentes crises pós-modernas significaram um ataque frontal contra todos os meta-relatos e macro-utopias. Neste sentido, as grandes religiões, as filosofias da libertação, os grandes projectos políticos, económicos e sociais, etc., viram-se atacados na sua própria raiz.

 

        As propostas globalizantes como os cristianismos, os judaismos, os islamismos, os socialismos, os liberalismos, os humanismos... foram assim des-legitimados, chegando inclusivé a aparecer como grandes mentiras (ainda que tal vez com algum fundo de verdade) que só causaram enormes desastres à Humanidade ingénua. Triunfava assim o Nietzsche mais radical. Impunha-se então viver no fragmento, no momento, no quotidiano, no pequeno. Pelo menos, entre as diversas pós-modernidades possíveis, mostrava-se aqui a mais radical delas. Todo mega-relato tornava-se ipso facto suspeito. “Suspeita dos discursos belos  -diria Nietzsche- Só acreditamos naqueles que balbuciam!”.

 

        O impacto sobre a espiritualidade clássica, tradicionalista, foi brutal. A questão podia ser formulada como o fim da espiritualidade, pois a espiritualidade tinha sido interpretada como uma traição ao “terrestre”, à corporeidade, à sexualidade, ao quotidiano. Em definitivo, ao “mais aquém” real, ao serviço de um “mais além” abstracto e universalizante.

 

        Era verdadeiramente o fim de uma espiritualidade[34], de um modelo de mística caracterizado pela tirania do universal, do analítico, quantitativo, dedutivo, extraordinário (heroicidade). Portanto, o desprestígio do pormenor, do círculo, da horizontalidade, do feminino, do recursivo.

 

        Desacreditou-se a espiritualdiade macro, verticalista (hierárquica), transcendentalista, dual. Caiu a fé na linearidade da História. A História não tinha já um único sentido (ah!, mas tem Sentido? ). A História ganahava assim em pluralidade, pluri-causalidade, interrelacionalidade cósmica, holística. A Espiritualidade também.

 

        O que perdeu crédito mais radicalmente foi a dualidade Macro-micro, como se o micro fosse uma simples aplicação (“instanciação lógica”) do Macro. Ou então, como se o Macro e o micro fossem duas “coisas” (substâncias) totalmente diferentes. Como se houvera um abismo, uma ruptura entre ambos. O que é que tinha a ver a Macro-economia com a micro-economia? Até parece que estavam as duas confrontadas.

 

        Compreendemos então agora que existe uma nova epistemologia que põe em questão a relação simplista entre Macro e micro. Talvez porque não existe um ‘Macro’, por uma parte, e um ‘micro’, por outra, mas um “continuum” Macro-micro[35], que se denomina Todo (hologramático). O Todo está em todas as partes (paradoxo: assunção da linguagem paradoxal) e as partes estão no Todo (são expressão dele). Desta maneira cai a visão “espacializadora” de que as partes conformam o Todo por mera adição ou soma. Pelo contrário, compreendemos agora que o Todo é maior do que a soma das partes (Edgar Morin). Não é então um mero agregado de partes passivas (visão somatória quantitativista), mas sim que as partes inter-actuam entre si e geram campos (energéticos) cada vez mais complexos (teoria da complexidade do real). O Todo possui assim propriedades emergentes qualitativamente novas, e não é concebido já como a mera conjunção de partes estáticas.

 

        O holograma pode mostrar que a forma da “arvorezinha” está em cada uma dos seus fragmentos. Cada fragmento da árvore mostra a Árvore total em pequeno, em escala micro. Em realidade, só existe o Todo (com Partes!).

 

        Assim, a incidência sobre a parte, o fragmento ou o micro é também intervenção sobre o Todo ou o Macro. Eis aqui a chave do contínuo Macro-micro. Cada micro é expressão do Macro e cada Macro é expressão do micro.

 

        No nosso interior acha-se o Macro (que podemos combater: luta espiritual), que nos coloniza. Pela sua vez, o Macro é a caixa de ressonância dos diversos micros, que, articulados entre si, produzem emergências qualitativamente novas.

 

        Portanto, de alguma maneira, intervir ao nível do micro é intervir também ao nível do Macro[36]. É este um dos grandes segredos da nova Epistemologia. Sabem-no também @s grandes místic@s. É subversivo: criação de espaços alternativos. Complementário disto é a teoria da exemplaridade social.

 

        Por exemplo: querer transformar na década dos oitenta as condições de vida da Nicarágua (micro)[37] tornou-se perigoso para o Sistema neo-imperial dos Estados Unidos (Macro) daquele momento. O pequeno, qualitativamente diferente (ainda que haveria que investigar se a Nicarágua sandinista foi assim tão alternativa...) resultava uma ameaça (recordemos a inversão vítima-vitimador) para o Todo. Em todo caso, era capaz de gerar entropia no Sistema estabelecido (“american way of life” globalizada). O caos desconstrói um sistema... e pode gerar outro (necessariamente alternativo?). O efeito-exemplar (teoria do exemplarismo social) é tremendamente prejudicial... para o Sistema dominante. De maneira que “o pequeno é belo”(Schumacher), para @s subversiv@s-alternativ@s.

 

        Portanto, as desprezadas micro-utopias (uma forma relativa de falar, porque, em realidade, só existem utopias com diferentes dimensões e sucessividade) tranformam-se em pedras fundamentais do desmonte do Sistema.

 

        ‘Micro-utopias’ significa então, por exemplo:

 

+ Um projecto concreto de economia informal num bairro-de-lata da América Central.

 

+ A luta contra o lixo nuclear numa cidade/povoação do Norte (do Hemisfério).

 

+ O trabalho de conscientização e jurídico para que se leve a tribunal a um genocida internacionalmente reconhecido.

 

+ Uma forma horizontal e anti-autoritária de gerir o social numa determinada municipalidade (poder local).

 

+  A “okupação” de um lugar deshabitado, desenvolvendo lá uma cultura alternativa.

 

+ Relações de companheir@ afectiv@ não dominantes, democráticas e não-sexistas numa família/união de facto concretas.

 

+ Decisão pessoal ou grupal de levar avante uma forma de vida simples, não consumista, objectivando a qualidade de vida e não tanto a quantidade de bens ou a densidade da conta bancária.

 

+ Luta por um sindicalismo auto-gestionário e mais transformador no lugar de trabalho.

 

+ Etc.

 

        Acções como as anteriormente mencionadas podem ajudar a transformar o Todo. Em realidade, qualquer luta de libertação ou pela dignidade, seja a que nível for, é muito importante. Todos os pormenores são significativos. O número não é normalmente o mais importante, mas a qualidade real da alternativa.

 

        Há uma pergunta de peso: É possível construir uma macro-luta a partir de diversas micro-lutas sociais? Acho que não existe uma resposta  a priori para isto. Não só depende de certa racionalidade interna, mas também de certos elementos externos à tal luta considerada. Mas o que está em jogo é arquitectar um novo paradigma de universalidade, feito metodologicamente não de cima-para-baixo (dedutivo), mas de baixo-para-cima (indutivo). Este novo paradigma não possui um final pré-determinado. É realizado historicamente e existe por isso incerteza. Toda realidade é construida (construtivismo), não estática. Por isso, o seu termo é imprevisto.

 

        Não existe, portanto, um final pré-concebido, mas um caminho surpreendente, onde as decisões vão-se tomando e abrindo novas possibilidades plurais de realização futura. A realidade constrói-se tornando-se mais complexa progressivamente.

 

        Milhares de fragmentos micro-utópicos não têm porque gerar uma macro-utopia por cima do tais fragmentos, mas por baixo. Isto é, evidenciam (ou podem evidenciar) um paradigma latente, comum a todos eles. Obviamente, também criado e re-criado: sujeitos na realidade, com a realidade, a partir da realidade.

 

        Recuperando tudo o que anteriormente foi dito, as micro-utopias expressam a Macro-utopia. A Macro-utopia expressa-se nas micro-utopias. Estamos, por conseguinte, no tempo das micro-utopias, geradas em e a partir do quotidiano rebelde e alternativo.

 

        Mas há uma questão chave: Onde radica a Diversidade? Qual é o Mistério da Diversidade? Não é a maior das tiranias, a origem da multiforme ditadura, reduzir a Diversidade a uma Unidade?

 

        A história da Humanidade deu-nos muitas respostas teóricas e práticas à questão anterior. Anfrontá-las requeriria uma investigação mais extensa a este respeito. Resumida e pessoalmente, acho hoje que pode haver três formulações fundamentais:

 

(1°) A Diferença, a Pluralidade e a Multiplicidade são aparentes: só existe a Identidade o a Unidade (posição parmenídea).

 

(2°) As Diferenças são o que há de realmente existente e este, o real, é conflituoso. A Unidade é uma ilusão, uma mentira, uma construção mental que reflecte um poder sobre as coisas ou sobre as pessoas (posição heraclítea e nietzscheana).

 

(3°) O real é simultaneamente único e plural, Idêntico e Diverso. Igualdade Diversa e Diversidade Igualitária. O Todo nas Partes e as Partes no Todo. Necessitamos então de uma nova consciência paradoxal que capte simultaneamente ambas tendências. A realidade é complexa e paradoxal. E isto a nível cósmico.

 

        Evidentemente, estamos mais de acordo com esta terceira posição, que pessoalmente denominaria como holística. O real é assim, permanentemente, mudança e identidade homeostática na mudança. Unidade Diversa. Diversidade Unitária.

 

        Mas, se o Cosmos é holístico, como se relacionam Deus e o Cosmos? Não queremos cair num monismo panteísta, tão pouco num dualismo rupturista. A quadratura do círculo? Somente fica, de um modo coerente, a saída paradoxal: Deus é imanente e transcendente ao Cosmos. “Está e não está”: Supremo Paradoxo Divino. ‘É’ (teologia positiva) e ‘não-é’ (teologia negativa), mas ambas articuladas[38].

 

        Deus não anula as Diversidades, mas também não as deixa soltas e em pura equivocidade. Sintetiza-as num Projecto. O Evangelho chama a isto ‘Reino de Deus’. @s comunistas, ‘Sociedade sem Classes’. @s libertári@s, ‘Anarquia’. Mas tudo isto lido com olhos novos e mente-coração novos. Portanto, uma Nova Utopia. Uma Nova Espiritualidade:

 

“Micro-utópic@s do mundo, uni-vos!”.

 

 

 

lisboa

cáceres

04.02.99

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6. SOBRE A FILOSOFIA NEO-ANARQUISTA

 

 

        Neste mundo-cão (com pedido de perdão aos cães!), ultra-dividido entre os poucos que mandam e @s muit@s que obedecem, o Neo-anarquismo representa uma oferta, uma atitude vital, uma maneira diferente de pensar e sentir, uma alternativa no quotidiano. Não é um dogma mais, nem um sistema fechado. Nem sequer pretende alcançar o estatuto de ‘Sistema’ (ainda que aberto...). É mais radikal do que tudo isso.

 

        Ser-se anarquista significa estar convencid@ de uma intuição fundamental. É um determinado estilo de ver as coisas, de senti-las, de vivê-las, uma “concepção do mundo” alter-nativa, di-ferente. Não é tão só uma outra maneira de exercer o Poder, descentralizada e autogestionária, ainda que o tema do Poder se ache no centro mesmo das suas reflexões. É, sobretudo, uma maneira de situar-se no mundo e de viver.

 

        Vejamos a seguir alguns elementos epistemológicos, configuradores e importantes, do Neo-anarquismo (NA).

 

(1°) TRANSFORMAÇÃO

 

        A visão ‘NA’ implica uma mudança permanente das coisas. Nada é estático e fixo. Tudo muda, tudo se transforma. É a Vida mesma. A Temporalidade como instrínseca às coisas e aos seres humanos. É uma permanente visão ‘juvenil’ da vida. Frente ao conservador, que pensa que as coisas em definitivo não mudam, @ NA concebe a possibilidade de que existam mudanças significativas no devir da História. É possível, por isso, pensar “outra História”, onde não há dominadores nem dominad@s, onde o Povo seja senhor de si próprio e da sua História (que não lhe pertence normalmente, mas que lhe é arrebatada).

 

        O  NA é profundamente vitalista e existencial-político, e, como pensa na transformação permanente, é profundamente optimista do que há de bom na “natureza humana”.

 

(2°) PROXIMIDADE

 

 

        Além disso, o NA é anti-dualista. Possivelmente, o Dualismo é, em essência, conservador e anti-revolucionário. Também militarista. Supõe estabelecer uma dualidade entre sujeito e objecto, entre “nós” e “eles/as”. Estão aí criadas as bases do “estranhamento”, da alteridade como ameaça e perigo – é a filosofia dos Corpos de (in) Segurança. O Dualismo empurra ao domínio, à corrida às armas, à auto-repressão[39].

 

        Pelo contrário, o NA tem uma visão das coisas e dos seres humanos como se tivessem sido feitos “da mesma massa”. Aponta para o imediato, para a acção directa. Em alguns momentos pode cair no anti-intelectualismo, mas não necessariamente. Pode resultar um anti-intelectualismo relativo, sem dúvida bastante saudável, mas, se é excessivo, pode chegar a ser reaccionário. Não acredita na representatividade. Diferencia-a da delegação (operativa, fiscalizada e provisória). O Poder enraíza-se na Assembleia colectiva de tod@s e cada um/a d@s implicad@s nos problemas. Acredita na democracia directa, auto-gestionária, onde cada um/a tem o Poder (na medida em que isto é possível...) e o exerce a partir de baixo.

 

        Funcionam as comissões e a delegação é só por operatividade, provisoriamente e de uma maneira subordinada. Sempre tomam como referência a Assembleia, que as fiscaliza e determina o que pode fazer-se. Em último termo, o Poder está em cada um/a. Por isso, o seu ideal é a unanimidade (não a uniformidade), tentando pelo consenso superar a antinomia maiorias-minorias, mas sempre a partir do debate permanente e o livre confronto das ideias.

 

(3°) HORIZONTALIDADE

 

        Tudo isto leva a uma concepção igualitária (nas diferenças), com uma forte componente pedagógica (a Educação é de grande importância). Respeitam-se as diferenças, mas tod@s somos iguais. É anti-hierárquico e anti-autoritário. Portanto, anti-militarista. Confia na racionalidade e no diálogo. É progressista.

 

        Quem seja autoritári@, não pode ser neo-anarquista. Tem que mudar radicalmente! Só se admite a autoridade racional e moral, algo susceptível de ser incorporado a partir do debate, da reflexão e da investigação compartilhada (modelo: Sócrates). Quem “pense” em soluções verticais, reflectindo à base de consignas rápidas (inclusive só por efectividade)[40], quem defenda que sempre existem (e existirão) os que mandam e @s que obedecem, quem acredite que têm que ser sempre os chefes os que conduzam os processos à frente das “massas” e que tomem as decisões, quem mitifique os seus líderes (que, como toda a gente, são de carne-e-osso...), quem acredita em hierarquias, honras, medalhas, rivalidade e violência, não é apt@ para ser neo-anarquista. Necessita uma conversão epistémica, além duma (conversão) ética.

 

(4°) ALTER-NATIVIDADE

 

        @ neo-anarquista nega que exista uma só maneira de fazer as coisas. Detesta o “pensamento único” da globalização neo-liberal ou de qualquer outra ditadura mental, do tipo que for. Também não acredita que haja duas maneiras de fazer as coisas, por muito dialécticas que se queiram apresentar...

 

        Pelo contrário, é preferentemente pluralista. Mas há que compreender bem isto. Não se trata do pluralismo burguês, de mais-do-mesmo. Acredita profundamente no ser humano e pensa que há nele um fundo de verdade, algo que não é dado já, mas que tod@s estamos chamad@s a ser. Existe, pois, uma fé antropológica (Juan Luis Segundo), ainda que seja utópica (Ernst Bloch) e se desenvolva temporalmente.

 

        Quem vive intensamente o NA (e, mais do que falar de um NA, existem neo-anarquistas, isto é, seres humanos que pensam diferentemente do tradicionalismo e que geram o NA criativamente) é quem utiliza ao máximo os seus neurónios para, em milhares de conexões sinápticas, descobrir possibilidades múltiplas de fazer as coisas e de avançar (dentro da filosofia da “prova e erro”: Feyerabend).

 

        O que muda o mundo é a “magia do possível”. O ‘possível’ também é ‘real’, na medida en que conforma um ‘material amplo’de construção da realidade. E não existe uma só realidade, mas realidades plurais, com múltiplas possibilidades de efectivar-se[41].

 

        A criatividade deve ser contínua, como um forno gerador de novas possibilidades. Haverá que escolher sempre entre aquela possibilidade que seja mais progressista, mais criadora de riqueza e plenitude, maior fraternidade-sororidade, maior complexidade ecológica, maior justiça e igualdade, etc.

 

(5°) MÉTODO

 

        O NA não é um dogma a mais na Humanidade. Trata-se de um caminho, de uma maneira de pensar e de viver[42]. Noutras palavras, de um método de pensar e de uma maneira de viver.

 

        Começa por captar os conflitos, as nossas próprias contradições e as da realidade social em que (sobre)vivemos. Não se engana com pseudo-harmonias pré-estabelecidas. Nisto é cruamente realista, não ingénuo. Identifica a indivíduos mesquinhos, ainda não libertados e amadurecidos, que adoram ter Poder ( “mito da omnipotência”), Riqueza, Fama. Para isso oprimem as grandes maiorias de este planeta ou, simplesmente, aos/às semelhantes que têm à sua volta..

 

        Essas grandes maiorias, das quais formamos parte, têm também as suas próprias contradições. Interiorizamos o opressor, deixamo-nos arrastar pelo egoísmo, o individualismo, o consumismo, o sexismo, o classismo, o racismo, etc., e achamo-nos, ainda por cima, a espécie dominante, com direito a tudo, neste planeta (e no Cosmos!).

 

        O NA é, pois, um método de libertação, aberto e flexível. Procura “pisar mansa e suavemente” para, ecologicamente, não destruir mais do que o faz o capitalismo tecnológico. Mas deve enfrentar-se aos poderes dominantes, para transformar a “ordem” (perversa) das coisas. Introduz, com isto, o Caos, queé preciso para obter uma “ordem” nova, mais igualitária e respeitadora dos direitos humanos (teoria do Caos). O ideal seria que previligiasse sempre a Não-Violência Activa, as suas estratégias e as suas tácticas.

 

        É também um método de libertação das nossas contradições internas, expressão de diversas contradições sociais. Não reconhece que entre o interior e o exterior exista um ‘antes’e um ‘depois’, porque não existe ruptura entre ambos. Não pensa que haja que esperar que a Sociedade, como um todo, se liberte, mas que @ própri@ se liberte. Nem procura somente uma libertação individual e intimista à margem da sociedade e do colectivo. Como já sabemos, a libertação é simultaneamente interior-social.

 

        O Macro e o micro são unicamente conceitos relativos, que podem resultar enganadores se são compreendidos de uma maneira substancialista. Não há fronteiras entre ambos: é a nossa mente que os cria. O proceso de libertação é total, integral, ou não é libertação. Libertação em todos os níveis e âmbitos da realidade: pessoais, grupais, sociais, cósmicos (Macro, meso e micro), etc. O futuro é relativo. O presente (contínuo) é mais “absoluto” do que o passado, que não “é”, ou que o futuro, que ainda não é: libertamo-nos já, aqui e agora (junto com @s outr@s).

 

        Revolução já! Amanhã nunca haverá revolução. Não há amanhã. Ou começo hoje mesmo, já, a grande aventura da libertação... ou nunca me libertarei! A libertação começa quando me entrego totalmente, quando abro a minha consciência, a minha vontade, a minha afectividade, a minha corporeidade (tudo um) à libertação. Mas não posso ser livre se os outr@s também não o são. E vice-versa. Neste sentido, a libertação é um processo colectivo.

 

(6°) LIBERDADE

 

        O NA é absolutamente sinónimo de Liberdade. Liberdade é plenitude, expansão ao máximo das nossas potencialidades, capacidades e condições. A nível mental e físico. A nivel espiritual, corporal, afectivo-sexual, volitivo, estético, ético, político, humano (tudo um). Uma das experiências humanas supremas, se não a mais de todas, é experimentar radicalmente esta Liberdade.

 

        Porém, “vivemos” chei@s de medos, angústias, temores, vergonhas, servidões. O NA ensina-nos a ser livres. A pré-condição é que acreditemos que é realmente possível sermos livres. Se não, nunca o seremos. A outra pré-condição é: reconhecermo-nos escrav@s de tantas coisas (materiais e espirituais) e começar a trabalhar a nossa própria liberdade. Mas repito que só podemos ser totalmente livres quando @s outr@s o forem também. Isto não é um impedimento só de ponto de partida, mas uma luta permanente.

 

 

 

 

(7°) MÍSTICA

 

        A palavra ‘mística’ assusta a muita gente que não se considera religiosa (das religiões historicamente existentes), mas, bem compreendido, não aos/às grandes Anarquistas da História. No entanto, há que esclarecer antes o que é que se percebe por ‘mística’, porque as categorias são susceptíveis de obter diversos conteúdos. Para evitar dogmatismos inconscientes, haveria muito que falar sobre isto.

 

        Heveria que mostrar, especialmente na Europa e nos Estados Unidos (no caso da América Latina e Caraíbas, África e Ásia não acontece a mesma coisa), que inclusive na suposta secularização (que pode ser um fenómeno libertador de certas atitudes pseudo-religiosas e criadoras de dependência) existe uma mística, um fundo de realidade que nos anima, potencia e dá sentido ao nosso existir.

 

        A mística não é tanto uma religião estabelecida, mas uma atitude vital perante as coisas. Falamos aqui de mística revolucionária (uma tautologia), “à esquerda da esquerda”. Para isso haveria que excluir um conceito de ‘mística’ como algo intimista, restrito, evasivo, alienante. Mística é interioridade com revolução social. O Dualismo

tem sido terrível na história da Humanidade.

 

        Por uma parte, conduziu a uma pseudo-interioridade espiritualista (não espiritual!), à margem da História, da pobreza, da opressão e da marginação.

 

        Por outra parte, criou uma espécie de “revolucionário professional”, um monge-soldado, fanático, iluminado, dogmático-autoritário, vanguardista manipulador, e, sobretudo, escasso de sensibilidade (o que era considerado “desvio pequeno-burguês”).

 

        O Dualismo, este dualismo, é uma ilusão e, mais do que isso, um perigo. Ou se é revolucionári@ total, integral, ou não se é revolucionári@. Não se trata de somar duas coisas, mas de ser-se revolucionário a todos os níveis, integralmente.

 

        O que é que se compreende por ‘interioridade’? Interioridade é convicção, idealismo prático, entusiasmo, capacidade utópica, unidade de pensamento, amor e vida num ideal, capacidade de sacrifício por essa paixão de mudança, radicalismo coerente, mas também auto-crítica e realismo permanentes. Se qualquer revolução social não possui esta ‘interioridade’, poderá degenerar no pior. A corrupção do óptimo é o péssimo.

 

        Por isso estou convencido de que, bem compreendido, o NA é “religioso”. ‘Religioso’ significa aqui que tem um Fundamento, uma absolutez, uma última razão definitiva de ser, tal como foi explicado anteriormente. Este Fundo pode ler-se em clave  das religiões históricas, mas não necessariamente. Pode ser também ateu ou agnóstico. Trata-se preferentemente de uma mentalidade e atitude vital, uma espécie de “franciscanismo secular”.

 

        Pessoalmente, sentimo-nos como alguém que pretende ser um neo-anarquista cristão e ecuménico, quer dizer, como alguém que aprende a viver em tolerância, dentro de uma ampla família libertária, onde há ateus/ateias, agnóstic@s, “secularistas” (ou “civilistas”), humanistas, anarco-religios@s de diversos tipos, “jesuânicos”[43], procuradores/as de “algo”que não sabem nem querem -nem quererão nunca- definir, etc.[44]

 

        O NA é, em definitivo, uma enorme paixão de viver, com alegria criativa e alternativa, optimismo inteligente e realista, sem esquecer um são cepticismo crítico e auto-crítico também, mas expandindo a Vida ao máximo. Dilatar em sí próprio e em colectivo a Energia Vital do Cosmos. Abrir-se à Surpresa de cada dia.

 

        Finalmente, porquê falar de ‘neo-anarquismo’ e não, simplesmente, de ‘anarquismo’? O que é que o prefixo ‘neo’ acrescenta de novo? Na minha opinião, salienta novos aspectos integráveis no pensamento e na práxis anarquistas históricas. Debatimo-lo já noutras ocasiões: incorpora ecologismo, pacifismo, feminismo, indigenismo, contra-cultura, iberismo (para @s que somos da Península Ibérica), etc. De todas as formas, todos estes elementos, integrados e articulados mutuamente.

 

 

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P.S. Pode ser que outr@s neo-anarquistas pensem que existem outros elementos importantes que não foram aqui assinalados. Perfeitamente! Não pretendemos ser exaustivos (é possível sê-lo?). Mas não importa. Que cada um/a acrescente mais algum! Também pode suceder que algum/a neo-anarquista não se sinta muito bem retratado aqui. Também não importa. Existem, é claro, uns mínimos, um comum denominador, mas, felizmente, não há na família anarquista um Comité Central de Ortodoxia, para esclarecer quem é anarquista e quem não... Ainda bem!

 

        Saúde e Revolução!

 

 

 

lisboa

06.02.99

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. SOBRE O MACRO-ECUMENISMO

MÍSTICA PARA UM NOVO MILÉNIO

 

        A Religião e o Mercado sempre caminharam juntos, para bem ou para mal. Mas enquanto antes predominava a Religião sobre o Mercado (teoricamente...), hoje é ao contrário. O Mercado é, actualmente, quem leva a batuta de qualquer desempenho religioso. É como a clave musical no pentagrama, a que dá nome a cada uma das notas.

 

        Na nossa tradição ocidental, o Catolicismo tem sido a tendência predominante dentro do Cristianismo. Mas, a partir do século XVI, com o Protestantismo e os seus diversos ramos, quebrou-se a dita hegemonia dentro do Cristianismo. Já se tinha dado, historicamente, a escisão Ortodoxa oriental. Os fenómenos da secularização, o ateísmo, o agnosticismo, o recente pluralismo religioso trazido com as diversas religiões orientais, assim como com os novos movimentos religiosos, terminaram (definitivamente?) com o monopólio católico. As religiões históricas são agora um fenómeno plural no Ocidente. O monopólio nunca foi são, fosse ele religioso ou político...

 

        Nestes momentos de liberdade religiosa, qualquer pessoa pode escolher a sua própria religião, fazer sincretismos ou bem carecer de religião. Há modas. Por exemplo, o Budismo está agora na moda no Ocidente. E parece-me bem, porque o Budismo é uma religião (?) séria e profunda. Mas há quem procura no esoterismo uma saída mística que não oferecem as religiões históricas (ou alguma mais do que outras), porque aparecem muito institucionalizadas, burocratizadas e normativizadas.

 

        Ou também se pode fazer uma “ementa religiosa” pessoal, na qual entram livremente aspectos que @ consumidor/a considera significativos e interessantes para ele/ela própri@ em várias religiões, filosofias ou espiritualidades.

 

        Eis aqui, por exemplo, um possível e interessante batido religioso actual:

 

+ Místic@s cristãos/ãs de diversas épocas históricas, à livre escolha com respeito à quantidade e à mistura.[45]

 

+ Metempsicose platónica, órfica, pitagórica e/ou neoplatónica.

 

+ Reencarnacionismo hindu com “karma”.

 

+ Espiritismo kardeciano.

 

+ Astrologia, Quiromancia e Tarot.

 

+ Compaixão búdica.

 

+ Vegetarianismo “light”.

 

+ Medicina naturista e Homeopatia.

 

+ Nudismo.

 

+ “Mantras” tibetanos variados.

 

+ Cábala judaica dosificada.

 

+ Mística sufi.

 

+ Tao da sexualidade.

 

+ Voo astral controlado.

 

+ Meditação Transcendental.

 

+ Etc.

 

        A dosagem apropriada é escolhida pel@ interessad@. Igualmente é possível que se possam deixar de lado alguns elementos que resultem incómodos e incorporar outros mais “simpáticos”: Bioenergética, Pirámides, Ufologia, Parapsicologia, outros ramos do Espiritismo, etc. Predomina um clima ocultista, teosófico, “místico”.

 

        Pode ir também acompanhado de um anti-clericalismo, mais ou menos forte ou moderado e a presença de um novo “guru” de fama actual, tão sedutor e/ou autoritário (ou mais!) como os “leader” das religiões históricas rechaçadas[46].

 

        Portanto, as diversas religiões competem dentro do Mercado, onde se dão lutas ferozes para ganhar os espíritos, as mentes, os corações, as preferências... e os bolsos dos fiéis! As religiões convertem-se então em fenómenos comerciais dentro de lutas mediáticas e consumistas. Nada escapa à lei do Mercado, à lei da oferta e da procura.

 

        Existem igualmente “crentes sem templo”, dentro de esta “religião à minuta”, de tipo individualista, privatizante e burguês (ainda que não exclusivamente).

 

        O que fica claro então é que já não existe um Monopólio (feudal) religioso, mas uma “luta dos deuses”, onde cada um/a escolhe @/s de que mais goste.

 

        Esta é uma parte do panorama.

 

        Não gostaria de caricaturar o anteriormente dito, porque há também muita procura espiritual profunda, autêntica e não superficial. Unicamente quis assinalar de que maneira o Mercado banaliza essa procura.

 

        No entanto, existe outra parte da questão, outras possibilidades, na minha opinião, bem mais positivas, que é o que se dá em chamar “espírito macro-ecumênico”. Trata-se de uma configuração criativa de uma nova “Consciência Religiosa Universal”, onde todas as religiões (inclusive as locais) e as espiritualidades podem contribuir com os seus enormes valores à construção de um mundo mais humano, solidário e feliz.

 

        Seria uma espécie de Associação Religiosa Mundial, onde entrem todas as Religiões (o critério da Verdade nunca foi o número total dos fiéis...), incluindo aqui as religiões autóctones (ameríndias, africanas, asiáticas...) que tanto têm para nos ensinar.

 

        Se é verdade que a religião cumpriu muitas vezes um papel de ópio do povo, de alienação, de evasão, de legitimação da (injusta) Ordem Estabelecida, ela/as pode/m exercer, nesta hora da Humanidade, na entrada de um Novo Milénio, o papel de um Grande Forno criador de valores para esta Humanidade à procura do Sentido da sua existência colectiva e pessoal.

 

        Se pertencemos a alguma religião histórica concreta, podemos pensar que ela dá a clave a todas as outras, mas em todas encontra-se a Verdade de um Mistério Profundo (ou Deus, pessoal ou não, ou ambas as coisas) que sempre se revelou ao ser humano, especialmente mediante práticas de Amor, Justiça e Paz.

 

        Porque, ao fim e ao cabo, todas as religiões são mediações, não fins em si mesmas. Nenhuma religião “encerra” Deus/Mistério como se fosse a sua “propriedade privada”. Todas elas são sempre traduções imperfeitas da Procura Absoluta que culmina em Deus/Mistério. As religiões, todas as religiões e espiritualidades, são relativas, históricas, provisórias.

 

        O que é que procura esta “Consciência Religiosa Universal”?

 

        Procura proporcionar caminhos de saída pluralistas à enorme encruzilhada histórica em que nos achamos. As religiões têm sido um “crisol de utopias” gigantesco, uma enorme “cozinha de ideais” da Humanidade e não devem deixar de o ser[47].

 

        Então, antes de que nos esmague o consumismo, a desigualdade económica e social, a miséria, o vazio existencial, o ecocídio, a opressão racial e étnica, o sexismo androcêntrico, o adultismo, a corrupção, a violência, a guerra e a concorrência, todas elas características da forma “civilizatória” neo-liberal ocidental em que (sobre)vivemos, as religiões possuem uma profunda Mensagem para o mundo de hoje.

 

        Feuerbach ajudou-nos a compreender que o religioso mostra não só a tendência perversa do ser humano, mas mostra-nos também precisamente o melhor do ser humano, a sua utopia (hipostasiada no que denotamos com a palavra ‘Deus’). Para ele, a religião não fala tanto de Deus, como do próprio ser humano (Homo homini deus est!). O mistério da Teologia é a Antropologia.

 

        Ainda que defendemos a ideia de um Deus Pessoal e Trinitário, achamos que Feuerbach, interpretado correctamente, tinha muita razão. Atrever-me-ia a dizer, inclusive, mais do que isto. A religião prega o que todo o Cosmos (onde o Ser Humano não é senão uma espécie a mais dentro de outras) está chamado a ser: Corpo de Deus transfigurado (sem leituras panteístas!)[48].

 

        Mais em concreto, a partir da nossa visão cristã (e também jesuânica), a opção radical pel@s pobres, defendida por diversas teologias da libertação, constitui um critério decisivo e definitivo para a construção de um Mundo Novo. Trata-se de uma verdadeira theologia crucis política, libertadora.

 

        Somente haverá um Mundo Novo quando desaparecerem a miséria, a exclusão, a marginalição, o autoritarismo, a opressão de quem quer que seja: empobrecid@, mulher, negr@, indígena, menin@, jovem, ancião/ã, “deficiente”, etc.

 

        Lido e vivido o Cristianismo de um maneira sócio-histórica (ainda que não se restrinja a isto) poderá resultar uma possível levedura de luta, de mudança, de esperança, ao lado de opções políticas revolucionárias de nova marca (e achamos que o Neo-anarquismo é uma delas!), para criar uma Humanidade mais feliz, mais harmónica e mais reconciliada consigo própria. Aqui, as religiões históricas devem deixar muito de seu lastro, proveniente do seu atrelamento complexo aos poderes dominantes do Sistema.

 

        O Macro-Ecumenismo não se dá então somente entre religiões[49]. De facto, verifica-se também com ateus/ateias, agnóstic@s, humanistas, com gente que não é, explicita ou formalmente, religiosa, mas que procura um Mundo e um ser Humano novos. Assim, sentimo-nos então unid@s num Caminho Comum de Procura, junto a ecologistas, pacifistas, feministas, indígenas e negr@s, artistas, cientistas de mente aberta, lutadores/as sociais, etc.[50]

 

        A Mística que daqui nascerá, e que já se está a criar, incorporará a Grande Corrente Mística de todos os tempos e de todas as culturas, que no fundo, da mesma maneira que @s artistas, fala uma língua semelhante.

 

        Temos muita fé e esperança, portanto, de que a Mística do Novo Milénio possa avançar por aqui. Recupero assim a Joaquim da Fiore (ainda que não compartilhe totalmente a sua filosofia-teologia) e a sua famosa expressão da “Era do Espírito”. Será então a Era do Novo Milénio.

 

        Ser místic@ será assim sentir este Espírito que nos revoluciona, pessoal e colectivamente, objectivando a construção de um Novo Ser Humano numa Nova Terra.

 

        E, se nos pressionam um pouco mais (e perdoem a “imodéstia do desejo”), num Novo Cosmos.

 

        Porém, acho profundamente que Deus não nos abandonará nunca no meio da “noite escura” da globalização neo-liberal e há de acompanhar-nos neste Novo Êxodo rumo à Globalização da Solidariedade.

 

        Amém!

 

 

 

lisboa

30.12.98

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTAS PESSOAIS

 

 

(DEPOIS DE TER LIDO ESTE LIVRO, ESCREVA A SEGUIR, SE ASSIM O DESEJA, TUDO O QUE QUEIRA...)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Outra vez as côres usadas com sentido axiológico: porque é que o preto representa sempre um símbolo de tudo o que é negativo? Não poderia ser ao contrário?

[2] Porém, a INTERNET oferece hoje possibilidades interessantes de foro planetário de ideias, não controlado pelo Sistema. A INTERNET pode converter-se já num novo Areópago por satélite. O problema está a ser o excesso de informação, mas, com sentido crítico, é possível superar esta hiper-informação, trabalhando numa linha alternativa.

[3] É o caso, por exemplo, de FERNANDO MIRÉS, na sua obra La revolución que nadie soñó o la otra posmodernidad (Nueva Sociedad, Caracas 1996).

[4] Aproximo-me aqui, neste ponto, de Pablo González Casanova.

[5] Aproprio-me da formulação clássica de ‘paradigma’, tal como foi introduzida por T.S. KUHN, no sentido de um modelo de pensamento que serve de cânone exemplar para todos os demais, num determinado âmbito humano, o científico (e não só). Cfr. T.S.KUHN, La estructura de las revoluciones científicas (FCE, México D.F. 1975).

[6] Nem sequer são famos@s alguns/algumas d@s aqui apresentad@s...

[7] Dedicado a GALILEU GALILEI, profeta de uma Scienza Nuova.

[8] Dedicado ao genial ALBERT EINSTEIN, que, malgré lui, mostrou-nos um Mundo Novo.

[9] A SIGMUND FREUD, que nos ajudou a desvelar um microcosmos humano, certamente repulsivo, mas, sem dúvida, muito próximo do que realmente somos.

[10] A FRIEDRICH NIETZSCHE, embora aristocrático, sempre subversivo. E, ao mesmo tempo, a NIKOS KAZANTZAKIS, cristão-nietzschiano, nietzschiano-cristão.

[11] A KARL MARX, o “eterno” revolucionário.

[12] A  L. TROSTKI, que hoje teria compreendido que, lutar contra N. MAKHNÓ, foi um erro semelhante ao da pica que R. MERCADER ergueu contra a sua cabeça, por mandato de J. ESTALINE. Aos amig@s do PSR português e da LCR espanhola, em “iberismo revolucionário”.

[13] Aos meus irmãos/ãs KROPOTKIN, PROUDHON, BAKUNIN, MALATESTA (OU BUONATESTA?), GODWIN, THOREAU  e outr@s tant@s mais.

[14] A VIRIATO, história e/ou mito (não interessa!), pai de guerrilheir@s e contestári@s ao Sistema Estabelecido.

[15] A AGUSTO C. SANDINO, no centenário do seu nascimento, em acção de graças pela generosidade da sua vida, entregue ao servico do povo nicaragüense.

[16] A ANTÓNIO de LISBOA e PADOVA, santo das nossas infâncias.

[17] A GIROLAMO SAVONAROLA, neste quinto centenário da sua morte, queimado numa fogueira.

[18] Não se sabe onde puseram o teu cadáver. Mas há um escrito onde te enforcaram: "Dietrich Bonhoeffer, testemunha de Jesuscristo entre os seus irmãos". É suficiente.

[19] A PEDRO VALDO, JOHN WYCLIFF, JAN HUS, THOMAS MÜNZER (e posteriores ANABAPTISTAS), GIOACCHINO DA FIORE, FRATICELLI, GNÓSTIC@S, ILUMINAD@S e outr@s Espirituais.

[20] Ao grande místico BUDA.

[21] Com muito carinho, a LAO-TSÉ, que desde há anos, desde adolescente, tanto me ensina.

[22] A ZUMBÍ, desde Palmares líder da libertação d@s noss@s irmãos/ãs afr@s. Recordando igualmente o 8 de Janiero de 1454, quando o Papa Nicolau autorizou o Rei de Portugal a escravizar qualquer nação do mundo africano, sempre e quando se lhes desse o Baptismo, claro...

[23] Aos 8 milhões de seres humanos que, trabalhando como escravos, perderam a sua vida,

nas satânicas minas de prata de Potosí.

[24] À minha amiga Puerto, lésbica, que descobriu-me um mundo novo.

[25] Aos meus avós GABRIELA e LÚCIO, sem palavras para agradecer-lhes infinitamente tudo o que para mim significaram.

[26] A tod@s @s jovens inconformistas (pleonasmo) do mundo e de todas as épocas. Ao meu irmão Ricardo.

[27] Às crianças de todo o Mundo, principalmente aos/às Menin@s da Rua, e também à Criança que tod@s levamos dentro, lá bem escondida.

[28] Achamos que não há que confundir as propostas ‘marxianas’com as suas supostas realizações históricas, as do ‘socialismo (ir)real’ ou as da tímida ‘social-democracia’. Ainda acreditamos que “o velho” (Marx) é aproveitável, com alguns melhoramentos, é claro...

[29] Faço aqui referência especial à experiência e luta dos noss@s amigos/as anarquistas.

[30] Sobre isto foi muito o que Nietzsche nos ensinou.

[31] Bastante disto mostrou-nos Wittgenstein.

[32] Muitas vezes são os países mais pobres os que mais investem, proporcionalmente, em despesas militares. Por outra parte, é falaz a opinião de que o armamentismo produz postos de trabalho: se utilizamos o critério económico dos custos de oportunidade, teriamos que perguntarnos o que é que se poderia conseguir se se criassem empresas civis  em vez de militares...

[33] Não esquecemos (numa perspectiva durkheimiana) que os Exércitos e a sua lógica militar procuram apagar a consciência crítica dos soldados, de tal maneira que se perca a sua individualidade, como um facto colectivo que se imponha às pessoas. Neste caso, a “batalha” já está perdida quando o poder dominante consegue esvaziar as consciências individuais (des-personalização): “a nossa pele é o último reduto perante o Sistema”. Mas a insubmissão militar e social tem que fazer-se necessariamente colectiva.

[34] Provavelmente, devido à lei pendular que rege a Humanidade, voltará novamente disfarçada...

[35] Inspiro-me aquí na concepção física de Minkowsky de que existe um continuo espaço-tempo, o que resultou básico para a Teoria da Relatividade de Einstein.

[36] Se o microcosmos reproduz o Microcosmos, trabalhando o microcosmos incidimos no Macrocosmos. O argumento parece irrefutável.

[37] O tamanho ou dimensão do micro é relativo: depende sempre da sua referência Macro, e vice-versa.

[38] Mais ‘não-é’ do que ‘é’ (Tomás de Aquino, místic@s). O Amor radical (assim como qualquer experiência humana profunda, vital) é inexprimível, inefável. Somente o compreendem @s própri@s Amantes.

[39] De todas as formas, fica por pesquisar a questão mais de fundo sobre a origem do Dualismo...

[40] E acho que haveria muito para discutir sobre efectividade...

[41] Seria possível pensar numa síntese de realidade de realidades? Possívelmente, só Deus possa pensá-la...

[42] “Vive como (de acordo ao que) pensas, não vá acontecer que acabes um dia por pensar (legitimando) como (a maneira em que) vives”: velho adágio anarquista.

[43] ‘Jesuânic@s’são @s que acreditam no Movimento de Jesús, na ‘Jesus Revolution’, ainda que não o pensem nele como o Filho de Deus incarnado entre nós e, inclusive, pode ser até que não acreditem num Deus (pessoal ou não).

[44] Achamo-nos também entre aqueles/as que acreditam num Deus pessoal, o Mistério Profundo da Realidade, “Coração do Céu e Coração da Terra” (como dizem @s noss@s irmãos/irmãs qekchis), assim como no seu Filho Jesus de Nazaré, o Profeta da Galiléia, e na sua Revolução evangélica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[45] É evidente que nestas “minutas” individualizadas desaparece qualquer diferença entre ortodoxia e heterodoxia, porque não existe nenhum Poder Central que estabeleça uma norma reguladora com as suas penalizações, devido a que a “ementa” é puramente pessoal. Para que isto fosse realidade, teve que haver previamente um amplo desenvolvimento do mercado bibliográfico. O esoterismo é agora um bom negócio: vende. O problema é a falta de rigor e coerência em muitas destas “ementas” (não em todas, claro, pois há “ementas sérias”). Vale tudo!

[46] Inclusive, dão-se às vezes, em certas seitas, ainda que não necessariamente, tendências fascistas e de ultra-direita, mais ou menos escondidas. Parece que há alguma gente que procura, antes de mais, “segurança vertical” neste mundo em crise.

[47] A este respeito e na nossa opinião, achamos que os diversos socialismos não são senão secularizações do pensamento judaico-cristão da Grande Fraternidade Universal e do Reino de Deus na terra (Paraíso Terrenal). Esta afirmação, evidentemente, precisaria de mais desenvolvimento.

[48] Neste sentido, deveriamos re-trabalhar a Teilhard de Chardin. S. Macfague proporciona-nos também interessantes aspectos sobre a ideia de Criação como Corpo de Deus (cfr. S. McFAGUE, Modelos de Dios. Teología para una era ecológica y nuclear . Sal Terrae, Santander 1994).

[49] Reservamos o termo de ‘micro-ecumenismo’ para aquilo que se realiza entre os diversos ramos do Cristianismo, e, de uma maneira um pouco mais ampla, entre as religiões monoteístas.

[50] Um dos grandes profetas do século XX, o Papa João XXIII, falava de “os homens (e mulheres) de boa vontade”.