DE HOLISTICA POETICA

 

 

 

 

 

 

rui manuel grácio das neves

lisboa  (portugal)

18.04.06-17.04.07

nagpur (índia)

25.12.06

kathmandu (nepal)

22.03.07

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A todos os místicos e místicas

Que inspiraram estas modestas letras:

Francesco, Eckhart,

Juan de la Cruz, Teresa de Ávila,

Ramana Maharshi, Jiddu Krishnamurti,

Bede Griffiths, Thomas Merton, Ernesto Cardenal...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          “Poesía:

La única forma de decir

la verdad sobre la Tierra”[1].

 

 

“Contemplation is to see and to hear from the heart.

It takes us beyond sense perception.

It is to relate to things as they are”[2].

 

 

“To share in the vision of God means 

that we have to pass beyond all concepts

of the rational mind

and all images derived

from the senses.

We must pass into the world of non-duality,

in wich our present mode of consciousness

is transcended”[3].

 

 

“The ultimate mystery cannot be named,

cannot be properly conceived”[4].

 

 

 

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO[5]

 

1. O Holismo é uma filosofia de vida. Uma filosofia global. Uma filosofia cuja melhor exemplificação é de maneira poética. Por quê? Porque a “palavra filosófica”, o conceito, a ideia, é algo sumamente abstracto e fixo, estático, imóvel, incapaz de captar uma Realidade que se nos apresenta de maneira fluida, ágil, flexível, impermanente. A Poesia é então a melhor maneira de expressar o que é inexpressável. A melhor maneira de deixar a Realidade ser ela própria. Porque é precisamente disso que se trata: deixar a Realidade ser Realidade.

 

A Poesia torna-se ou pode tornar-se então um espaço de encontro com o Absoluto, revelado no concreto, no temporal, no efémero. No quotidiano da existência humana.

 

A Poesia passa assim a ser um “método”, um caminho de “de-velação” (M. Heidegger) da Realidade que não fixa nada: somente acompanha... A Poesia “abre” o mundo que é infinito em possibilidades, desde a própria Existência vivida em Autenticidade. Por isso, as metáforas serão sempre possíveis, umas melhores do que outras, numa superação infinita. (Claro, a questão é ser-se bom poeta...).

 

É esta, portanto, uma Poesia “metafísica”, mas baseada na “física”, na materialidade, no concreto da vida, que é, sobretudo, dinámico, uma “diafanidade do Ser” que convive com o Não-Ser. Ou seja, que é amba as coisas ao mesmo tempo. Depende da Óptica. Depende da nossa “epistemologia” pessoal. Epistemologia que não foge da “contradição”, do paradoxo, porque a própria Vida é contraditória.

 

Sim, porque trata-se aqui duma Óptica, duma maneira diferente de encarar a Realidade. Nenhuma visão a “fecha” definitivamente, porque a Realidade é Omni-Realidade, sempre Diversa, sempre Una. Trata-se de pormo-nos a caminho.

 

Os Pés são a metáfora da Poesia Metafísica.

 

É uma Poesia filosófica, programática, mas tenta ser “fluente”, flexível, passageira (porque a Realidade “passa”). É a Poesia transformada em dinamismo vital, criativo. Criar é ser Realidade, melhor, é ser-se possuíd@ pela Realidade. Nós somos a Realidade!

 

O problema principal radica nos obstáculos que nos impedem ter consciência de que já somos, Aqui e Agora, essa mesma Realidade. Por isso, a Poesia é aqui um caminho de Despertar, de Iluminação, de Nirvana espiritual-vital. De abrir os olhos ao Original, ao que já somos, mas que esquecemos. Poesia é aprender a Reconhecer, melhor, “re-conhe-Ser”. Eis aqui o melhor da maiêutica socrática e de várias filosofias orientais.

 

2. De um ponto de vista formal, este nosso texto subdivide-se em duas partes: uma, dedicada à Poesia; a outra, à Prosa Poética.

 

Mas, no fundo, trata-se duma mesma temática: o Holismo. Por quê esta diferença formal? Porque na Poesia o conteúdo pretende ser mais “sintético”. Na Prosa Poética, mais “exegético”. É uma questão de acentuação. As duas complementam-se.

 

Ou seja, na primeira delas, aparece mais “concentrado”, mais “integral” o que se pretende dizer. Na segunda, tenta “explicar-se” um pouco mais. A primeira é mais “criativa”. A segunda, mais “hermenêutica”.

 

Há sempre um trabalho formal, mas na parte poética ele é mais fundamental, mais decisivo. Ou, pelo menos, a intenção é essa. Veremos se se conseguiu...

 

No entanto, tudo isto é muito relativo. Há Prosa Poética mais “Poética” do que muita Poesia... No fundo, é uma questão de Inspiração, não de forma. Inspiração: ser possuído pelos deuses, pelos “demónios”, pelo Transcendente. É conhecido o provérbio: “Um génio é 10% de Inspiração e 90% de Transpiração”.

 

(E o pior é que não somos génios!).

 

3. Esta é, pois, uma Poesia filosófica que possivelmente não resultará de fácil compreensão. Sobretudo porque há experiências por trás das palavras. Experiências difíceis de expressar. Muito pessoais. No fundo, trata-se de sentir que tudo está conectado com tudo, que as coisas não sucedem por acaso, ainda que assim as expressemos em certo modo. Tudo está inter-conectado. É algo que aparece permanentemente em várias teologias e filosofias. Como, por exemplo, no complexo conceito budista de pratītyasamudpāda, a inter-causalidade de tudo e do Todo (cósmico).

 

Não é, portanto, uma Poesia “popular”, comum, no sentido de que possa ser apreendida de imediato por qualquer pessoa, em qualquer momento, se bem que ela possa falar de coisas que, de per se, são tomadas da vida directa e imediata. Talvez devesse ser uma Poesia que, posteriormente, pudesse ou devesse ser mais “explicada”, se é que alguma Poesia pode ser correctamente explicada (isto se tivéssemos as capacidades poético-exegéticas de um São João da Cruz...). Pelo menos, poderíamos falar do que está no fundo dela. Mas também isto seria “atraiçoá-la”. Penso que esta modalidade de Poesia é necessariamente esotérica e não exotérica, se bem que deveria ser possível tentar “manifestá-la”, no seu conteúdo.

 

No entanto, provavelmente, não iríamos muito longe... Acabaríamos necessariamente em fracasso. Porém... Bendito fracasso! Seja dito isto em épocas neoliberais como a nossa...

 

Por isso é que a Poesia é poesia e não prosa, ainda que estas distinções possam resultar também um tanto artificiais.

 

4. Nesta Poesia, além disso, predomina o Fundo sobre a Forma. Não é uma procura imediata de novas formas de dizer o que sempre se disse, ainda que possa haver ter também muito disto. É, sobretudo, uma Poesia material, ainda que não “materialista”. Há qualquer coisa que se quer dizer. A Poesia pretende aqui ser Comunicação. Apesar de tudo, fica-se pelo gesto. A questão é que esta derrota é uma auto-derrota inicial, uma derrota previsível. Não se esperam “milagres” ao final. Só se mostra alguma coisa. O resto tem que ser experimentado pel@ leitor/a-actor/a, se é que esta Poesia pode tornar-se Verdade. O/a leitor@-espectador/a converte-se então em caminhante, em “cúmplice do mesmo crime”.

 

Este texto não pretende deixar em paz quem o ler. Porque é para mexer com, não é para deixar numa estética meramente estática, de espectador/a á margem de tudo e de todos. Não queremos alimentar a  "perversão divina” de um/a Observador/a Infinito Que-Não-Se-Observa-A-Si-Próprio. Ler esta Poesia é, de alguma maneira, tentar mexer connosco própri@s. Na nossa filosofia estética, será “boa” Poesia se o conseguir. 

 

Talvez os puristas nos condenem por isso, por não fazermos Poesia Pura. É uma Poesia “ancilla Mysticae” (“serva da Mística”). Pretende ser Poesia, não poesia. Uma “serva”, mas com total autonomia. Contradição? Pode ser. Mais uma  das várias que atravessam estas páginas... 

 

De todas as formas, seria uma “escravidão” de altos voos, uma “escravidão” para a Liberdade, onde a própria Poesia se liberta. Paradoxal, não é verdade?

 

E liberta-se de quê?

 

Liberta-se da prisão da Forma, dos temas “mundanos”, do “purismo”, das estreitas fronteiras epistémicas do que é poesia e do que não é poesia...

Aleluia!

 

Então, vale tudo?

 

Não, não vale tudo!

 

Não pode faltar a Inspiração e uma Forma espontânea (não artificial) que provém do Fundo mesmo da Experiência, melhor, da Vivência. É uma Poesia que tenta pro-vir de uma Vivência, ou então não é Poesia. Nisto, porém, não é tão original.

 

A principal originalidade está em ir às Fontes, à “Origem”. Ser-se Verdadeir@.

 

Noutras palavras, a Poesia passa a ser expressão directa da própria Vida.  Oxalá...

 

Bem-vind@s, pois, ao Mundo Holístico!

 

Nele, comunicamo-nos e as vivências são todas nossas. Nenhuma é egoisticamente só.

 

E continuem o vosso Caminho, que é também o Nosso Caminho, o Caminho de Tod@s![6]

 

 

lisboa

18.04.06

nagpur

13.12. 06

kathmandu

24.03.07

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I. POESIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. ESTAR

 

 

Estou.

 

Simplesmente,

Estou.

 

Sim?

Não acredito!

 

Em realidade,

Passo

E passo

E volto a passar.

No entanto,

Agarro-me.

 

Sou a Angústia do Agarrar,

Porque se sente cair no Abismo,

No Abismo que não é Nada,

E onde,

Portanto,

Até agarrar-se é uma Ilusão,

Um Supremo Auto-Engano.

Mas

Agarro-me!

 

Porém,

Também a Ilusão faz parte da Realidade,

Somente

Uma maneira diferente de encará-la,

De focá-la.

 

Mal-vivemos na Ilusão do Agarrar-se,

Dos Apegos,

Dos Aferramentos,

Procurando,

Algures,

O Permanente.

Mas o Permanente

Não Mora em Nenhuma-Parte.

 

É o Mistério

Do PermanentePassar,

No Silêncio Transcendental

Intuido,

No Vazio da Plenitude.

 

Passar,

Passar,

Sem Procurar

O que já Está.

Sem me Agarrar.

 

E,

Por isso,

Simplesmente,

Aqui Estou,

Mais além de mim próprio,

Porque,

Em realidade,

Eu

Também

Não

Existo.

 

 

 

lisboa

02.05.06

nagpur

11.12.06

 

 

 

 

 

 

2. O UNIVERSO MORA NO BAIRRO DA MINHA MÃE

 

 

Tenho um Incrível Amigo neste Bairro:

 

O Universo!

 

A Sério?

 

Sim,

O Universo

Mora no Bairro da minha Mãe,

Aqui mesmo,

Em Lisboa!

 

O que

Eu quero dizer,

Com vossa licença,

É que

Todo o Universo

Está presente

No Bairro da minha Mãe,

Lá mesmo na Quinta da Luz!

 

Quem iria pensar

Que tenho um Amigo tão importante!

 

Há então algo mais

Do que eu ainda venha a precisar?

 

Há vários jardins no Bairro da minha Mãe.

E nas pedras de qualquer deles

Está cifrada

A História de todo o Cosmos,

Até

Hoje,

Até

Aqui

E

Agora.

 

(Mas como lê-la?

Ah!,

É preciso ser-se inundado pelo Espírito!

É preciso sentir-se como Pedra.

E mais,

É necessário Ser-se mesmo Pedra!)

 

Também há árvores, cães, relvados,

Crianças, mães, jornais velhos,

Bicicletas, sonhos,

Passados, presentes e futuros,

Esperanças,

Sujidade,

Sol,

Nuvens,

Vento,

Carros,

Poças de lama,

Semáforos,

Lua e Sol,

Gente,

Bebés,

Jovens,

Idos@s,

Comércio,

Hipermercados

(Onde,

Seja dito de passagem,

Meus/minhas amig@s,

Habita o deus Capítal,

Aquele que,

Desde estes seus modernos Templos,

Rege,

Infalivelmente,

Os Destinos das nossas vidas).

 

E há

Também

Militares,

Padres,

Religios@s,

Poder Local,

Campos de Futebol

(Aleluia!),

Passeios,

Estacionamentos...

E muitas, muitas coisas mais!

 

E,

Sobretudo,

Estão presentes outros mundos,

Infinitos mundos mesmo,

Em intersecção matemática connosco,

Geometricamente democráticos,

Alternativos,

Simultâneos,

A roçar-nos mesmo a ponta do nariz.

Aqui mesmo,

Ao lado.

 

E neste micro-Mundo

Do Bairro da Minha Mãe,

Está tudo o que Existe,

Em Pequena Esfera,

E em cada uma delas,

Encontra-se o Macro,

O Universo todo.

 

O Comércio é o Capitalismo mundial,

Com a suas regras da Oferta e da Procura,

@s seus/suas desempregad@s,

@s seus/suas explorad@s,

As suas Vítimas,

Os seus números,

Os seus enganos.

 

E,

Assim,

Os Sonhos da gente do Bairro da Minha Mãe

São também os sonhos de tod@s os Humanos,

De qualquer parte do Mundo

Onde sobrevivam

(Ganhar bem, ser feliz, ter filh@s, ser amad@s, ter Sorte na Vida, triunfar, ser bem recordad@, ser famoso...).

 

E,

Assim,

Também,

Em cada um/a de nós,

Dentro de Nós,

Há um Hitler e um Einstein,

Um Pinochet e um Francisco de Assis,

Um Salazar e um Kropotkin,

Um Franco e um Gandhi.

 

O dedo que aponta para outr@,

É,

Ao mesmo tempo,

Três dedos que apontam para nós

(E um também

Para uma Suprema Testemunha,

Lá no “Alto”,

Como dizem,

Ou cá em baixo?).

 

Rapazes,

Raparigas,

Cada um/a de nós

Somos

Indicativamente,

Como os sinais de Trânsito

Do Bairro da Minha Mãe,

O Mundo inteiro.

 

E o Poder,

Ah! E o Poder,

Que sempre é tão impotente,

Excepto para fazer Mal,

Ou aquilo que definimos convencionalmente como Mal

(Para a nossa Espécie,

Claro,

Porque poderia ser Bom para outras espécies,

Ou até para o Resto da Natureza:

Mas Nós também somos a Natureza!),

Mora,

Igualmente,

No Bairro da minha Mãe.

 

Mas não há Guerra,

Dizem-nos!

Ou será que sim?

Claro,

Existe uma Guerra Virtual Permanente,

Pois o Conflito,

Nas nossas mentes e corações

Habita diariamente:

É Guerra em Potência!

 

E agora penso mesmo naquele velhinho,

(Ou melhor, eu sou esse mesmo velhinho!),

Que não pode ultrapassar as fronteiras do Bairro da minha Mãe,

Pois as pernas e a saúde não lhe dão para mais,

Então,

Ele,

Ela,

Não precisa de ir mais longe.

 

Se quiser,

Realmente,

Verdadeiramente

Compreender o Mundo,

Basta-lhe

Este minúsculo Bairro

Este Ponto Insignificante

No Macro-Mapa,

No Universo Ingente.

 

Basta-lhe,

Em definitivo,

Se souber,

Se for Sábio,

“Entrar” em

Todo este Mundo

Que vive,

Imenso,

No Interior

De cada um/a de Nós!

Que é o mesmo que se mostra no Exterior:

O esotérico é o exotérico

E o exotérico é o esotérico

“Assim como é em cima,

Assim é em baixo”.

(“Assim como é à Direita,

Assim é também à Esquerda”,

Politicamente falando...).

 

Sim,

É verdade,

Acreditem mesmo,

Não sejam céptic@s,

O Universo

Mora

Mesmo

No

Bairro

Da

Minha

Mãe.

 

E,

Olhem,

Que,

Como diziam no outro dia na Televisão,

Eu nem sou “bairrista”!

(Ou sou mesmo?

Um “bairrista” globalizado!).

 

 

lisboa

05.05.06

nagpur

11.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3. SER

(PÁSSARO)

 

Neste Dia,

Sabiamente,

Decidi

Transformar-me num pássaro!

Acreditem,

Posso transformar-me no que quero.

Tenho esse Dom.

Basta-me ser Uno com o Cosmos.

Portanto, posso Ser pássaro

Não é verdade?

 

(Mas O que é “Ser”?

Ser é “sentir”.

Pensar como um pássaro,

Sonhar como um pássaro,

Procurar alimento como um pássaro,

Proteger-me como um pássaro,

Voar como um pássaro,

Escapar do Perigo

Como um pássaro).

 

Escolhi ser um milro.

Agora canto em qualquer árvore.

E,

Que bem que canto!

Que belos são os cantos dos Milros!

Sou livre.

Só devo comer quando preciso.

Mas devo ter cuidado:

São perigosos os seres humanos.

Mais do que qualquer outro ser!

 

De repente,

Voluntariamente,

Mudei para Gaivota.

Gosto mais!

Estou mais em companhia.

Não tão sozinho.

Porque,

Às vezes,

A gente aborrece-se mesmo de estar sozinho.

E

Esvoaço perto do Porto de Lisboa.

Posso ter outras amigas.

Tento agarrar algum peixe.

Mas agora,

Neste dia,

Não estou

Realmente

A ter lá muita sorte.

(Alguma coisa

Deve falhar

No meu Sonho!)

 

Há vento.

E Sol.

Quase não mexo as asas.

Calculo.

Sou um Mestre em Geodinâmica.

E em Física do Espaço.

Passo rente à água do Mar.

Merda!

Escapou-se-me outro!

Mas sinto-me bem.

Sinto-me livre.

Posso levantar voo,

De Novo.

Volto a Ser,

De Novo.

 

E

Vejo seres humanos lá em baixo,

Pequeninos,

Pequeninos.

E

Observo as pequenas ondas,

Brancas,

A esmorecer.

Não há quase praia.

Ai,

Estes seres inhumanos acabam realmente com tudo!

Já quase nem há peixes!

Só o óleo dos barcos.

E contaminação.

E mais smog.

Restam poucos peixes nesta zona.

E tenho que comer!

 

Mas sinto-me feliz.

Vou para cima das pedras,

Lá nas docas.

Esfrego o bico no corpo.

E limpo-me.

Coço-me.

O Sol está forte.

 

E,

Lá “em cima”,

Está Deus,

A Grande Gaivota,

Que nos dá a comida

Nossa de cada dia.

“O peixe nosso de cada dia

Dai-nos hoje”,

Quando dele precisamos,

Ensinou-me a Minha Mãe

Quando eu era mais pequeno.

 

Ao longe,

Os apitos de um barco.

Há vários barcos.

E

Hoje há até

Um grande transatlântico

No Porto de Lisboa.

Quantas janelas!

 

Para onde irão tantos seres humanos,

Metidos naquelas janelas?

São tão prisioneiros os seres humanos!

Eu não queria Ser mesmo um ser humano!

Não podem voar.

Não são livres.

São tão escravos!

 

Mas eu sou um ser humano também!

Perdão,

Sou uma Gaivota.

Perdão,

Sou as duas coisas!

Qual a diferença?

E posso ser muito mais...

É só querer!

 

Se quiser,

Posso ser livre.

É só querer!

Querer é poder.

Não é preciso Dinheiro.

Nem Poder político.

Essas coisas só atrapalham a vida de uma Pessoa...

Muito mais uma Gaivota.

Para que há-de querer

Dinheiro ou Poder

Uma Gaivota?

 

De todas as formas,

Interrogo-me

Frequentemente:

Mas porque é que

Tão poucos seres humanos

Querem ser livres

de verdade?

 

Eis a Grande Pergunta,

O Grande Ko’an:

“O que é,

Em definitivo,

Ser-se Livre?”

Há alguém

Que se atreva

A responder?

Não com uma abstração

(Não compreendo abstracções),

Não com uma resposta

Pré-fabricada,

Mecânica,

Artificial,

Aprendida de Memória,

Nos Livros:

Falsa,

Portanto.

 

Sim,

Quem pode responder

A esta pergunta

Com a própria Vida?

“Eu”,

A

Gaivota

Que

É

Todas

As

Coisas!

 

 

 

lisboa

10.05.06

nagpur

11.12.06

 

 

 

 

4. O MUNDO ESTÁ (L)O(U)CO

(OU DAS TREMENDAS SEMELHANÇAS COM LAO-TSE)

 

É!

O Mundo está oco.

Não tem qualquer substância.

O Mundo,

Hoje,

Concentra-se numa só frase:

Compre!

Consuma!

Consuma!

Compre!

E,

Sobretudo,

Não pense!

 

Você não é gente se não consome.

Seja o que for.

Mas Consuma sempre!

Eis o nosso deus,

O Nosso Absoluto!

 

Mas,

Eu,

(Quem sou eu?)

Perante isto,

Como o Lao-tse,

Pareço estar à margem,

Pareço ignorante,

Estúpido,

Ou,

Então,

Pareço

Ser um orgulhoso

Que quer ir a contra-mão,

Um Parasita,

E dos Piores!

 

O que eu digo não tem nenhum valor.

Nada!

Flatus Voci,

Puro vento.

Num primeiro momento,

Tod@s dizem que sim,

Com a cabeça,

Mas, realmente, não estão de acordo,

Lá no fundo.

Pensam:

É demasiado radical!

Até pode resultar interessante,

Mas não convence!

É demasiado raro!

Obrigar-nos-ia a sermos,

Para viver tudo isso,

Uns/umas Permanentes Solitári@s,

À Margem

D@s Outr@s,

Auto-marginalizad@s.

Não vale a pena!

É até perigoso!

É demasiado a contra-mão,

É demasiado esforço,

Muita Energia.

É ir contra todo o Mundo.

Nadar contra a Corrente do Mundo.

Ser demasiado diferente!

Portanto,

Preferimos viver numa Mentira,

Mas em Colectivo,

Do que viver sozinh@s,

À margem de tod@s e de tudo.

Uma Mentira Colectiva

Deixa de ser Mentira,

Pensava Göbbels.

“Não quero saber já mais dessa mensagem”,

dizem,

“É a mensagem dos perdedores/as.

Já basta!

Estou fart@!”

É,

O Mundo,

Está Louco.

 

O Mundo

Está

Oco,

Oco,

Oco.

 

E

Eu

Também

Estou

Oco,

Oco,

Oco.

 

Mas

Para

Receber

Todas

As

Formas

Possíveis.

 

 

 

lisboa

12.05.06

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. ETERNO CAMINHANTE

 

A Vida é o Caminho,

O Caminho é a Vida.

 

Passar pelas estreitezas do Caminho,

Como Pedra pelas condutas urinárias,

Caminho da Uretra,

A Libertação,

Neste Desterro,

Com um Sorriso na Boca,

E a Mochila às costas,

Mochila com tantas coisas

Que parecem ajudar e

Que nos impedem de caminhar.

Muito Peso,

Muita Acumulação.

 

Dizem os Sábios:

O importante é o Caminho,

Não a Meta.

Nem a Morte

É o Fim!

O importante é Caminhar,

Caminhar,

Caminhar,

A Unidade entre o Eu e o Caminho,

Tornada Ação.

Ou melhor,

Um Caminhar sem Eu.

Quem Caminha?

Qual o Caminho?

Nem Caminhante, nem Caminho.

Só Caminhar!

 

E Permanecer Atent@s ao Caminhar,

Sem Distrair-nos,

Mecanicamente,

Rotinariamente,

Que a Distração é a Morte.

Inatent@s,

Portanto atropelad@s

Pelo comboio da História,

Isto é,

Pelo conjunto de tudo

(No qual alguns

Mandam mais do que outros).

 

Marcha sincera,

Imparcial,

Silenciosa

(Silêncio da Mente),

Vazia,

Acolhendo tudo

E tod@s,

Como Mãe do Cosmos.

 

(E uma Mão,

Sobretudo,

Para @s Carentes

De Tudo e de Tod@s).

 

Caminhar ao encontro Próprio,

Pois na Pátria

Entra-se

Pela Porta de Dentro,

A Porta do Coração.

(Mas

Onde

Está

O

Coração?)

 

Caminhar

Sem Saída,

Sem Rumo

Previsto,

Ainda que o Rumo

Esteja há muito tempo

Previsto

Por Aquele/a

Que nos Espera

Em cada momento

Do Caminho,

Mais Além

Do Caminhante

E do Caminho.

Lá,

Mesmo no Meio,

Do Nosso Caminhar,

Connosco,

Pois

Ele/Ela/Isso

É

O

Próprio

Caminho/Caminh-ar.

 

 

 

 

 

lisboa

26.06.06

nagpur

11.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6. CULTURA YIN-YANG

 

Ver,

Sentir,

Tudo

Em dualidade

Integrada,

Não separada,

Holística.

 

Como o voo

De uma águia,

Majestosa,

Altiva,

Divina.

 

Como o Bebé,

Na Surpresa metafísica

De um Cosmos totalmente novo,

O Sorriso mais do que o Choro

(Mas primeiro choramos,

Até um Dia podermos sorrir).

A Força da Vida

Reecontrando-se consigo própria,

Em toda a plenitude vazia

De Possibilidades geradoras.

 

A Unidade no fundo da Diferença,

Mais Além da Diferença,

Sem a destruir.

O Divino Sonho da Plenitude Total,

Num Momento,

Neste Precioso Momento,

Aqui,

Agora,

Eterno.

A Unidade intuida,

Imersa na Multiplicidade,

Vendo a Identidade

Nas múltiplas diferenças,

Num só Olhar

Sinopticamente,

Como os Três Evangelhos:

Boa Nova!

 

Brincar

A ser Deus,

Sendo um miserável mortal,

Que também está em Deus,

Assumido,

Aceite,

Amado.

 

O Mistério do Amor

Que tudo Envolve,

Também na Guerra,

Na Porbreza,

Na Injustiça.

Uma Razão,

Mais Além de todas as razões.

E,

No entanto,

Bem próxima de todas elas.

Unido.

 

O Infinito

No finito,

Limitado,

Ignorante,

Pobre,

Vazio,

Esperançado!

Eis

O

Tao,

Realizado,

Integrado,

Fundido,

Presente

No Yin-Yang.

O Teu Rosto Original,

Antes de nascer.

 

 

 

lisboa

27.06.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. EMIGRANTE

 

 

Emigrante.

Num mundo perdido,

À procura de um Destino,

Ainda por criar.

 

Emigrante.

Do Cosmos,

O “nosso” Pátio de Quintal.

 

Emigrante.

À margem

Do Organizado,

Desencaixado

Dos termos estabelecidos,

Como neve no Deserto do Sará.

 

Permanente

Outsider.

 

Débil,

Inadaptado

Ao ritmo do Progresso do Mercado.

 

Ateu da Competitividade,

Da Eficiência tecnológica,

Do “fair play” do Sistema,

Como Astronauta

Perdido no Metro de Paris,

Sem bilhete de ida e volta,

Sem mapa.

 

Idealista

Dum Mundo In-existente,

Num Universo de Bolsas,

Divisas, Utilidades,

Poder e Fama mediáticas.

 

Sozinho,

No Fundo do Corredor

Da–vida-que-funciona,

Como tigre dos Himalaias

No Zoológico de Lisboa

(Antes Metro “Sete Rios”:

E,

A propósito,

Onde ficaram os Rios?

É este o nosso

Futuro Tecnológico?).

 

Sorriso na Boca

Dos Perdedores,

Comiseração alheia

No Pisar forte

Com vítimas e sangue,

Sem Esperança.

Atento

Ao dia-a-dia

Do Maravilhoso e Surpreendente,

No Quotidiano.

 

Incompreendido

Pelos outros,

Compreendido

Pelo Totalmente Outro,

Agora

Imanentemente

Companheiro

De Esquecimentos

Voluntários.

 

Maioria silenciosa

E silenciada.

Habitante das Cavernas

Do Presente Contínuo.

Marginalizado

Sem uma palavra de Condenação,

O Sorriso que admite

Todas as Formas.

 

Pó,

Só aquecido pelo Sol

Infinito,

Porque Estrela

Sem Rumo nem Fim.

Porque

Fim

E

Princípio,

Ao final,

São

A

Mesma

Coisa!

 

 

lisboa

28.06.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8. ESOTÉRICO/EXOTÉRICO

 

Esotérico:

Mergulhar nas profundas águas interiores,

Onde o Espírito mora,

Algures,

Sem Espaço nem Tempo,

E sem Causalidade.

 

Exotérico:

Dar de beber a quem não te pode pagar,

Convidar para uma Festa

A quem não pode retribuir-te.

A Gratuidade

Do Sol e da Chuva,

Sobre “Justos” e “Pecadores”.

 

Esotérico:

Descobrir o Sentido profundo

Da História

E da tua própria Biografia,

Que são Uma Só.

 

Exotérico:

Praticar a Revolução do Quotidiano,

Junto d@s mais Pobres e Excluíd@s,

O olhar posto na Utopia

Da Grande Fraternidade/Sororidade Universal.

 

Esotérico:

Viver A Grande Espiritualidade

 

Exotérico:

A partir da Opção Radical pel@s mais Pobres.

 

Esotérico:

Abert@s ao Infinito

No Aqui e Agora.

 

Exotérico:

Boddhisattvas dum Mundo Melhor,

Consagrad@s à Felicidade alheia

De Todos os Seres,

Sem Excepção,

Sem Excepção,

Holística-mente.

 

Esotérico/Exotérico:

A Mesma Coisa.

A Dupla Cara de Jano,

Olhando em Todas as Direcções

Infinitamente,

Porque Todas Elas

Não são,

Senão,

O mesmo Jano

Contemplando-se a si próprio,

Multi(di)versamente

No Único,

Sendo assim,

Em certo modo,

Todas as Coisas.

 

 

 

lisboa

29.06.06

(Pedro e Paulo)

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9. NIRVANA E SAMSARA

 

 

Nirvana que é Samsara

(e Algo mais),

Samsara que é Nirvana

(e algo menos).

 

Como a Semente na Árvore,

Como a Árvore na Semente.

Não há Semente sem Árvore,

Nem Árvore sem Semente.

Eis a perfeita lógica das coisas.

É assim em Cima,

Como é em baixo

(E onde,

no Cosmos Total,

está

“em Cima”

e onde

“em baixo”?)

 

Não há Trascendente

Sem Imanente.

Nem Imanente

Sem Trascendente.

Pura lógica.

 

Consiste

A Vida

Em Descobrir o Nirvana

No Samsara,

Ou o Samsara no Nirvana,

Que é o mesmo,

Sendo diferente.

Vivendo,

Não

Simplesmente

Pensando.

 

Aquele Beijo perdido

Pode ser a Iluminação,

E a Luz

Está Presente

No Meio das Trevas.

Só não vê

Quem não quer ver

Ou (ainda) não pode...

 

Tecnologia sem Coração

É Cadáver.

Mas o Coração

Encontra

A sua própria

Tecnologia,

A sua própria Disciplina.

De dentro para fora.

Da convicção

Para o Empenhamento.

A Águia levanta o seu voo,

Para beber das cristalinas fontes

Da Montanha Pura.

E

Essa Montanha Pura,

Irmão,

Irmã,

Jaz,

Precisamente,

Debaixo dos teus próprios pés.

É só questão de abrires o Terceiro Olho

O Olho Interior!

 

 

 

lisboa

06.07.06

nagpur

13.12.06

 

 

10. MÍSTICA

 

Soa a Raro,

Como a Mistério,

Como a Música Celeste,

Sem Notas.

E,

No entanto,

É o mais comum do comum:

É Simples,

As-coisas-tal-como-elas-são,

Assim,

Sem mais.

E sem menos!

 

A Unidade com o Cosmos,

Junto da Unidade com Ele/Ela/Isso/Aquilo.,

A Suprema Realidade,

A “Base”.

Tudo Um,

Sem Antes nem Depois,

Mas não são a mesma coisa,

E,

No entanto,

Estão unidas,

Inter-relacionadas,

Inter-conectadas.

A Diferença

Não Implica Separação,

Mas Unidade na Diferença,

Diferença na Unidade.

Unidade dialéctica.

Mas

É

Preciso

“Senti-lo”,

Irmão/Irmã!

Os “ortodoxos” não nos entendem,

Porque,

Com a pequena Cabeça,

Com a Mente

Não pela Contemplação purificada,

Querem captar

O-que-está-mais-além-da-Mente.

E,

Dentro dos seus pobres conceitos

Querem abarcar

A Vida que se escapa,

Como um Rio,

Entre as mãos,

Entre os dedos,

Entre os Poros

Da Vida.

 

Preciso é então

Ser-se Rio,

Sim,

Ser-se Rio,

Para intuir a Realidade também

(Ou seja,

Para ser-se Realidade).

 

Só quando

Não existir diferença

Entre o Rio e eu,

Quando o Rio seja eu,

E o eu,

(Se existe)

Seja o Rio,

Ambos Tudo e Nada,

Então,

Tod@s somos Um/a!

Quando eu for @ African@ emigrante

E @ African@ imigrante

for @ Europeu/eia,

Então,

Irmão,

Irmã,

É

Que

Chegou,

Por

Fim,

O

Reino

De

Deus

Aos

Nossos

Corações.

Aleluia!

 

 

 

lisboa

10.07.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11. SILÊNCIO

 

Silêncio,

Filma-se a Vida!

 

Silêncio

Que

É,

Nem mais nem menos,

Do que o Centro da Vida.

 

A Criação

Surge em e no Silêncio.

O Silêncio é o Mistério da Vida,

O Silêncio é o Arco-Iris

Da Vida,

O Caleidoscópio

Com o qual se constrói

O que existe,

Ou,

De como,

Tudo muda em Tudo.

Triângulos,

Quadrados,

Rombos,

Tudo de cor e em cor,

Toda a classe de cores,

Festival de cores,

Eis o Irmão Silêncio!

Habita-nos,

O Silêncio,

Como habita o Mundo,

É a mesma coisa.

Não há Cor

Sem Irmão Silêncio,

Nem Silêncio

Sem Irmã Cor.

Ambos são convertíveis,

Como o Ser, a Verdade, o Bom, o Belo, o Um,

Na filosofia escolástica.

O Silêncio está mais-além do Tempo,

E do Espaço,

E da Causalidade.

É a Eternidade

No Centro do Tempo e do Espaço,

E assim Deus É,

Como bem disse o Teólogo,

“O Centro que está em todas as partes

E cuja Circunferência

Não está em Lugar Nenhum”[7].

 

 

 

lisboa

11.07.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12. ACÇÃO

 

“No princípio era a Acção”,

Escrevia Goethe no Fausto.

Era este,

Aliás,

O seu lema.

(Um livro que o acompanhou quase toda a sua vida:

Livro=Vida,

Vida=Livro).

 

Da Acção vem tudo,

Nada chega a ser

Sem Acção

(Perguntem ao Bill Gates!).

 

Mas,

Que Acção?

Qualquer Acção?

Há uma Acção

Que parece Não-Acção,

E há outra Acção,

Que chega a ser

Contra-acção,

Pura Re-ação.

(Não é verdade,

caro amigo

Pinochet?).

 

Estar atent@,

Vigilante,

No Dia-a-Dia,

Transcendendo

Aqui e Agora,

Assumindo a multiplicidade de Formas,

Como uma Mãe,

Que tudo acolhe

(Quantas destas mães restam?),

Como um Amor Universal

Mais além d@s própri@s filh@s.

Acção,

Melhor dito,

Construção,

Criar,

Mostrar novos rumos,

Novas estradas e caminhos,

Abrir possibilidades,

Como se

Pudéssemos

Criar

Novos sons,

Novas cores,

Novas sensações.

 

Existe,

Amig@s,

Uma Acção

De Dentro para Fora,

Pura “souplesse”,

Segunda natureza

que é já Primeira,

Actuar sem parecer.

Tudo é espontâneo,

Original,

Originário,

Partindo da própria Essência,

Que é a mesma Essência de Tudo.

Ou seja,

Uma Acção

Que é

In-acção.

 

E só quem muito pratica,

(Prática, prática, prática!)

Poderá,

Tal vez,

(Tal vez,

Digo,

Se o ego

Não existir)

Descobrir

Um Dia

O In-transmissível.

Eis 

A

“Nossa”

Verdadeira

Saudade.

 

 

 

lisboa

13.07.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13. MORTE

 

Aqui e Agora,

Ei-la,

Misteriosa, triunfante, criativa.

Morremos e re-nascemos a cada minuto,

A cada segundo,

A cada instante da Vida.

(As nossas células,

Os nossos neurônios).

 

Morte-Vida,

Vida-Morte,

Entre-laçadas,

Mutuamente apoiadas,

Mutuamente solidárias,

Pratityasamutpada.

Uma precisa da outra,

Ambas se nutrem,

Inter-relacionadas.

O concreto é esta dualidade.

Só no abstracto

Há essências fixas.

 

A nossa Morte

Alimentará o Cosmos.

Lei da Vida!

Porquê,

Então,

Querer

Ficar,

Eternamente,

Aqui?

 

(Bom,

Alguns/algumas

Só querem é ficar,

Não importa onde:

Algures,

Mas ficar,

Existir,

Não desaparecer,

Continuar).

 

No Fim,

O Grande Sonho,

O Grande Sono,

O Cansaço final,

A Paz, o Silêncio, o Repouso.

Esta Morte traz Vida.

 

E também a Morte,

Aqui e Agora,

Alimenta a Vida,

Recicla-a.

Como alimentam a Vida

Os milhares de mártires,

Que deram o seu sangue

Pela Causa do Reino

Sem Recompensa,

Em pura Gratuidade,

Sem querer nada receber,

Puro Dom.

Mistério da Vida

Que é a Morte.

 

 

 

lisboa

02.08.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

14. TRI-UNIDADE

 

(É impossível fazer um poema à Trindade!

Uma Ousadia.

Mas o Amor por Ela é tanto,

Tanto...

De maneira que aí vai ele,

Companheir@s!)

 

Perfeita Comunhão

Na Diversidade

E na Unidade.

Unidade Pluridiversa.

Diversidade Una.

 

União de Puro Amor.

Toda em Cada Uma das Pessoas.

Supremo Holismo.

Cada Pessoa é o Todo,

O Todo cada Pessoa.

 

Pessoa?

(Antropomorfismo?)

Ver e Ouvir

Sem Olhos nem Ouvidos materiais.

Puro Espírito.

Presente em todo o Cosmos.

E no meu interior.

Transcendendo-me.

Lá bem no Fundo,

Mais além dele.

Energia Suprema,

Amor sem Fim.

(Porque hei-de estar sempre tão longe de Ti!).

Os amores

“De cá de baixo”

São tão provisórios.

Passageiros,

Como as nuvens do Céu,

Como as ondas do Mar.

Só enche o In finito.

Mas que cheios estamos de finitos!

Apegos.

Amarras.

Attachments.

Efémeros.

Ilusão.

Maya.

 

Seria

Como viver em pura Liberdade.

Qualidade de Vida Verdadeira.

Liberdade Condicionada,

A Nossa.

Como Prisioneir@s.

Isso é o que somos.

Prisioneir@s das nosas mentes,

Dos nossos desejos

Infindáveis.

 

De um para outro,

De outro para um.

Uma dança sem fim.

A Dança de Shiva.

Sem encontrar a Paz Total

Da Única Trindade,

A Única Importante,

A Única na qual deveria estar

A nossa Existência

De uma vez,

Para Sempre,

Imersa.

 

 

 

lisboa

04.09.06

nagpur

13.12.06

 

15. O VEGETARIANO

 

Conheço alguém que é vegetariano.

No meat, no fish, no eggs,

No milk, no cheese,

No...

 

Yes,

To Life!

 

Amor pela Natureza,

A tentativa de ser

O mais coerente possível,

Com o Cuidado da Vida.

 

A alimentação mais racional,

(Se é que,

Algum dia,

Nesta Terra,

Realmente,

Podemos os humanos ser

Absolutamente racionais).

 

Algum dia,

Algum dia,

Os seres humanos

Não precisaremos das plantas e dos vegetais,

Porque saberemos como incorporar Energia

Directamente do Irmão Sol

(Enquanto não se apague,

Claro,

No caso de que a nossa espécie,

Que não é eterna,

Subsista até então).

 

Dizem que alguns Ioguis sabem fazê-lo.

O quê?

Isso mesmo,

Incorporar directamente Energia sem comer nem beber.

Não acredito!

Bom,

Na Índia

Acontecem coisas tão estranhas...

 

Não precisar de comer nem de beber:

Essa sim que seria a maior Revolução da Humanidade na História!

Livres de Patrões e outros exploradores da mesma ralé,

Trabalhar só por Prazer,

Por Amor,

Sem compulsões,

Que maravilha das maravilhas!

 

Mas

Lá chegaremos,

Lá chegaremos!

Não percam a Fé,

Aqui,

Na Terra,

Ou “lá”,

No Céu,

Na Outra-Grande-Dimensão-Sem-Dimensões.

 

 

 

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05.09.06

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16. O CALEIDOSCÓPIO

 

Quando era pequeno

Tinha um caleidoscópio,

Com o qual sonhava

Cores e imagens sempre diferentes,

Sempre multiformes,

Nunca iguais.

 

É verdade,

É verdade,

A Cor existe!

 

No outro dia

Emprestaram-me

Um caleidoscópio.

E voltei a ser criança!

Um Mundo Novo,

Mágico,

Surgiu,

Cheio de imagens geométricas

Com Cor,

Ou Cor

Com imagens geométricas.

Sempre diferentes!

 

Gostaria

Que

Um dia,

O caleidoscópio

E eu

Fôssemos uma só coisa,

Ou seja,

Um Só!

Eu,

Que sou Cor,

A Cor,

Que sou Eu.

E

(talvez)

Não-Eu,

Só Cor,

Só Luz.

Infinita.

 

 

 

lisboa

05.09.06

nagpur

13.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APÊNDICE:

 DOS CEM NOMES DIVINOS

 

O Bendito

O Eterno

O Clemente

O Compassivo

O Misericordioso

 

O Deus-dos-Mil-Nomes

O Vazio

O Infinito

A Base

O Fundamento Cósmico

 

O Repouso

A Vida Plena

A Realidade Suprema

A Realidade Última

A Realidade Absoluta

 

O Absoluto

A Paz-Sem-Fim

O Amigo d@s Pobres

O Pai-de-toda-Justiça

O Caminho Permanente

 

O Amor Total

A Mãe do Cosmos

O Todo-mais-além-do-todo

O Imanente infinito

O Transcendente-desde-o-Profundo-do-Coração-Humano.

 

O Fogo-Sem-Fim

O Princípio-Sem-Fim

O Grande Revolucionário

A Liberdade Plena

O Eterno Ouvinte

 

 

O Vidente

O Olho Trino

A Comunhão Perfeita

O Inominável

O Absolutamente-Mais-Simples

 

O Simples-Complexo

O Tri-Divino

O Uno

O Único

O Sem-Espaço-Sem-Tempo-E-Sem-Causalidade

 

O Pai-Mãe

O Ser

O Não-Ser

A Fonte

A Força

 

A Energia Suprema

O Primeiro-Sem-Segundo

O Grande Magnânimo

A Verdade

O Nada

 

O Dadivoso

O Omni-Consciente

A Eterna Criança

O Dinamicamente Imutável

O Tri-Uno

 

A Luz Eterna

A Divina Comunidade

O Senhor da História

O Dono do Mundo

O Dono da Vida

 

Coração do Céu, Coração da Terra

Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Pode-Pronunciar

O Silêncio Absoluto

O Divino Amante

O Amado

 

O Omni-Presente

O Deus da Vida

O Espírito Absoluto

O Bem

O Fim

 

O Fundo do Ser

O Criador

O Grande Artista

O Arquitecto do Mundo

O Grande Geómetra

 

O Sentido do Cosmos

O Perfeito

O Belo

O Amanhecer-Sem-Ocaso

O Senhor dos Céus e da Terra

 

O Sentido da Vida

O Inefável

Ele/Ela/Isso-Aquilo

O Modelo do Cosmos

O Primigénio

 

O Amigo

A Liberdade Total

A Divina Testemunha

A Existência Plena

O Incognoscível

 

O Indefinível

A Suprema Inteligência

O Ser Supremo

O Sábio

A Compaixão

 

A Suprema Consciência

O Divino

O Bem-Aventurado

Deus,

O Sem Nome,

(Aquele A Quem Amo).

 

 

 

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20.09.06

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II. PROSA POÉTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. NADA (NIHIL)/TUDO

 

        Está calor esta tarde. Mesmo muito calor. O azul do céu mostra-se muito claro e o Sol espraia-se como um gato em cima do tecto da casa, esticando-se todo, completamente, como um iogui em ‘stretching’.

 

Sinto que não sou nada em todo este Cosmos. Tudo me rodeia e às vezes sinto-me aparte. Como se estorvasse. Tudo é Eu, mas Eu não me sinto Tudo. Sinto muito! Talvez porque tenha dormido mal, dado muitas voltas na cama. Quem sabe, a idade (ou seja, o tempo acumulado...).

 

Todavia, tudo se inter-relaciona comigo e nada de tudo isso me é indiferente. Mas sou Ignorante. Não entendo o Uni-Verso Diverso. Ainda não conheço a sua Lógica Profunda. Que é também a minha mesma lógica, a do Ser. A de Ser.

 

Está tudo calmo, por aqui. Lá por fora, de novo Israel ataca @s palestinian@s e até invade o Sul do Líbano. A lógica da guerra que nunca resolve nada. Mas a Mente assim o crê.

 

Olho o relógio. O Tempo feito espaço. É tarde. O Tempo come-me, vence-me. Não sou Um com ele. E se o Tempo fora uma Ilusão, uma maneira de os humanos encontrarem medida a algo essencialmente Ilimitado? Infinito não é a palavra. Infinito só Ele/Ela/Isso. O Um-Sem-Segundo. O Um-Sem-Tempo. Mais além do Uno e do Múltiple. Porque Um e Múltiple são ainda formas relativas de as Coisas Acontecerem. Pertencem à Mente, à nossa maneira divisiva de enfocar as coisas e os acontecimentos. Puro Instinto de Sobrevivência!

 

E o Inefável, a Realidade Suprema, o Silencioso, aparece aqui ao lado. Está aqui sempre. Mas não se vê. Só se sente. Mais além do Tudo e do Nada. A Força Suprema. A Base. Nada. Mais além do Nada. Impensável. Indizível.

 

E o Seu esplendor vestiu-se esta tarde de Árvore, pôs o seu traje de glória infinita/finita, onde late, germinando Vida, criando possibilidades. Ou talvez Nuvem. Ou Mar. Ficou Perfeito.

 

Será que Eu estou realmente Nele/Nela/Nisso?

 

 

 

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02.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2. TRILOGIA TEMPORAL

(PASSADO-PRESENTE-FUTURO)

 

Debatemo-nos, os seres humanos, entre o passado, o presente e o futuro. O Passado, que já não é (mas que continua-a-ser em nós ainda), o Presente, que não é (porque está-sendo em total fluidez) e o Futuro, que ainda não é (mas que, antecipadamente, prevemos já nas nossas mentes e corações). E assim a vida passa-se, vai-se, esvoaça-se. O Tempo é a Morte de cada dia. Lentamente, escapa-se.

 

Somos o Passado, aquilo que fizeram de nós e no qual nós colaborámos. Fizeram-nos como classe social, como género, como etnia, como nacionalidade. Fabricaram-nos. E nós colaborámos com tudo isso. Por esta razão, nem nos damos conta do “fabrico”. Quando digo: “Eu penso”, “eu creio”... é que não conheço de que maneira sou- ou fizeram-me!- uma “marca de fábrica”. Fizeram a minha cabeça.

 

Somos prisioneir@s dentro das nossas mentes. Por sinal, dentro da Mente. A Mente é a “Matrix”. Em realidade, somos uma espécie de programas da “Matrix”. Acreditamos que a Realidade é isso que aí está.

 

Mas essa realidade não é senão uma Metáfora da Suprema Realidade.

 

Somos como a história daquele camelo, que atavam todos os dias a um poste, dentro de um espaço limitado. Acostumou-se tanto àquele espaço da sua prisão, de tal maneira que, quando um dia o puseram de novo naquele mesmo espaço, mas sem atar, sem corda e sem pau aonde atar, não se moveu dali em toda a noite... Somos escrav@s, atad@s por dentro. Escrav@s por convicção. Sem o saber.

 

Escravos de quem? Escravos de quê?

 

Eis umas boas perguntas, meus amig@s.

 

Pesquisem!

 

De momento, somente lhes pregarei sobre o Caminho para a Libertação – disse o Místico.

 

Ei-lo: está na Atenção Permanente. Noutras palavras: No Presente Eterno, no Eterno Presente. No Aqui e Agora. Vivido sem Tempo, com Total Intensidade. Um Acto de Amor Total em cada “momento” do nosso Quotidiano. Vigiai. “Não sabeis o dia nem a hora” – dizia o Mestre da Galiléia.

 

E aqui estou, sendo. Passando. Fluindo como o Eterno Observador/Testemunha do que me Acontece. Ou melhor: do que acontece, porque o ‘eu’ desapareceu, sumiu. Definitivamente. Mas existe?

 

(Por isso pergunto: onde estão @s pobres, onde @s palestinian@s, as mulheres e as crianças, massacrad@s nestes momentos pelo Exército Israelita, ou seja, por tod@s nós, com a nossa Indiferença? Não, não esqueço também as vítimas civis de Israel... E onde está a África, se ainda existe?... E as favelas do Rio ou os slums da Índia?...

 

Aí começa a nascer um Novo Eu, sem Passado, sem Futuro, sem Presente-Ponte, só com Presente Eterno.

 

Onde não há “eu”.

 

Só um Compromisso Total com a Vida Una).

 

 

 

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04.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3. ILUMINAÇÃO

 

Vivemos no Samsara. Na roda incessante da permanente morte-vida diária. Sem consciência. Longe da Base do Ser. Sem interconexão. Cortando quotidianamente a nossa Interrelação Fundamental com todos os seres. Sofrendo. Egocêntric@s. Perdid@s. Caminhando como zoombies pelo Deserto do Real. Sem Futuro. Escrav@s do passado. Sem Presente. Como abort@s expuls@s da Matriz Cósmica da Redenção. Parasitas do Cosmos, correndo de aqui para lá, sem Sentido. Astronautas sem rumo. Num Cosmos escuro, vazio, frio.

 

Iluminação é, pelo contrário, meus amig@s, o Encontro pleno da Raíz do Ser, disse @ Místic@. Sem Nome, porque o que vale, não pode ser achincalhado com um Substantivo ou um Conceito. Melhor, viver Acordad@s, no Segundo Acordar de cada dia. Viver no Tempo sem Tempo, Atemporalmente, sub specie aeternitatis. Sim, sem dúvida, ser estranho, raro. Ou seja, valioso perante a Massa e a Mediocridade. Qualitativo vs. Quantitativo. Não há meio-termo, mediocridade, possível.

 

Acordar.

Acordar.

Viver no Paraíso Perdido,

Já,

Aqui e Agora.

 

Morrer ao Tempo sem Sentido.

 

Ser Universal em Todo o Espaço. Ali estarei. Não há explicação. Por quê explicar o que se vive? Só Ver. Não Pensar. Só Ver.

E Alguém nos contempla mais além do Ser.

Chegamos.

E voltamos a Partir.

Peregrin@s

Caminhantes.

Acordar,

Acordar,

Acordar.

Imediatamente!

De uma vez para Sempre!

 

 

 

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15.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. SOL-LUA

 

Sol-Lua: os nossos constituintes orgânicos. Somos feitos de extremos, de extremos que se unem e se complementam. Como Yin-Yang. Espírito-Corpo, um só. Body-Mind. Mind-Body. Viver a Alternativesleben. Filosofia “neo-cínica” num outro mundo cínico, onde explodem as bombas sobre crianças, mulheres e velh@s debaixo de qualquer Imperialismo (da mente não espiritualizada, não pneumática). Ser sobretudo pneumátic@s, integrando o psíquico e o hílico ou sárquico.

 

Sol-Lua, o Masculino e o Feminino (em alemão os artigos de ambas palavras são ao contrário dos nossos: Die Sonne, der Mond. Que estranho! O género gramatical e o género empírico. O género e o sexo. Mas ambos estão em relação. Por quê, para @s alemães, o Sol é feminino e a Lua masculino? Na Humanidade há de tudo! E quem tem razão?).

 

O/A Sol-Lua estão dentro de nós. Nós somos Sol-Lua, Lua-Sol. Precisamos de meditar mais sobre isto. Até que o Sol e a Lua sejam tão nós, que não haja separação. Sol-Lua: Um/Uma só.

 

(Hoje está muito vento. Mesmo muito. E é Verão... dizem. Está também um pouco de frio e o céu está encoberto. Mas o Irmão Sol continua a existir. E a Irmã Lua também. Sejamos então franciscan@s a valer, cordialmente!).

 

Lua-Sol, a Integralidade do Ser em nós. Mas ainda estamos dividid@s. Ainda continuam a ser “duas coisas” para nós. E nós somos diferentes destas “duas coisas”... Que Ignorância! Por isso, assim caminha este mundo. E há guerras! E há quem quer dominar e até ter mais petróleo, mais controle energético (ironia!). Escravos da mente! Um que se impõe sobre o outro! Como se não houvesse campo para todas as ervas. E para cada um dos insectos. Democracia Cósmica.

 

(O céu, hoje, está cinzento. Também tem a sua Beleza! Há Cinzento em mim. Eu sou Cinzento! Que bom! Porque, acreditem, Eu estou Mais-Além das Dualidades, do Bem e do Mal.

 

Hoje cheguei a ser o que já sou,

O Bebé Original que há em Mim).

 

 

 

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16.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. MISTÉRIO

 

Mistério: a Última Palavra sobre o Ser. E, ao mesmo tempo, a Primeira.

 

Nada há mais além. O Fim sem Nome. A Existência sem Nome. E sem Medo. Acostumámo-nos a dar Nome a tudo. De maneira que, quando não há Nome, essa “coisa” não existe. Mas o Mistério não é uma coisa indeterminada ou indefinível. Não é realmente uma “coisa”. Mas como podemos os humanos falar de não-coisas?

 

Quem sou Eu? Existo? Existe algo denominado ‘Eu’? De onde provém? Para onde vai? Perguntas metafísicas! As únicas importantes. O resto é como Sobreviver com uns poucos euros, como aquela velhota de Madrid que apareceu nos jornais, que levava a vida “com muita filosofia”, pois sobrevivia com trezentos euros por mês. O Metro era o seu ginásio. Subir e descer escadas. Descer e subir escadas, de novo. O Mito de Sísifo. Andar muito, o seu exercício físico e mental. Comprar nos Supermercados mais baratos. Economizar. Ler o Jornal só nos Bares. Cultura, poderíamos até dizer, nos Centros Culturais da Comunidade. Um amigo meu faz isto e até recebe livros grátis. E Conferências. Sabedoria da Vida! Viver com um sorriso, sem se preocupar. Don’t worry, be happy! Filosofia neo-cínica!

 

Por todas as partes há anúncios, monótonos, que pedem - impõem! - que compremos. Compre, compre, compre! Eis a filosofia desta época. (E a velhota, claro está, comprará a fruta mais barata, no supermercado mais económico do bairro). E o Director Geral, um Mercedes Benz. Vales o teu carro. Tanto consomes, tanto vales! Sistema dixit!  E Glória ao deus Capital!

 

Compre, compre, compre!

 

Não há Mistério!

Não há Vida!

 

Só Vómito!

 

Mas aí começa também o Mistério da nossa Redenção!

 

 

 

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16.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6. A MONTANHA

(OU A HISTÓRIA DA SERPENTE ESMAGADA)

 

Era uma casa barata, alugada, claro.

 

Mas lembro-me que na minha casa do Bairro de San Miguel, em Madrid, zona Norte, havia uma bela vista de uma série de montanhas, lá bem ao longe. Montanhas fortes e poderosas. Uma cadeia de montanhas. Eu era então um adolescente. Essas montanhas (algum dia iria a Miraflores de la Sierra e passaria por Buitrago) significavam muito para mim, aos 17 anos. Eram uma fonte de Espiritualidade. E eu queria seguir decididamente um Caminho de Espiritualidade. “Discípulo do Caminho”.

 

(Montanha = Espiritualidade).

 

Mas essa Aventura ainda não tinha um Nome.

 

Assim que, uma vez, acho que num sábado (?), decidi caminhar durante todo o dia até lá. Até àquelas Montanhas, lá bem ao longe da janela do meu quarto.

 

(Itinerância = Espiritualidade).

 

Preparei-me, como se fosse dar uma longa volta e voltasse só à noite. Não sei se iria chegar lá, mas a ideia era caminhar, caminhar, caminhar até lá. Alcançar a Montanha. Pelo menos, Experimentar. Quem sabe, talvez noutra ocasião... Era Começar um caminho.

 

(O Caminho).

 

Eu estava a querer ir para a Índia e para o Nepal. Por que não começar já a preparar-me para ir às Montanhas? Não eram bem os Himalaias, mas eram, para mim, fonte de Espiritualidade... A Espiritualidade que eu tinha à mão, pobre adolescente solitário. Era como concretizar um pouco os meus sonhos.

 

(Criatividade: tentar concretizar as próprias utopias, com Alegria).

 

Os seres humanos não podem viver sem ter uma Meta na vida, não é verdade? Senão, não é mesmo Vida! É um sucedâneo.

 

Senão, vive-se como um zoombie sem Espírito.

 

E caminhei, caminhei, caminhei pela estrada afora, feliz.

 

O ar fresco da manhã no rosto, refrescava também a minha Mente e a minha Utopia.

 

Era O Único a caminhar pela estrada.

 

Carros, muitos. O “caminho convencional”.

 

(Carro = Símbolo do Sistema).

 

De resto, só passavam carros de um lado e do outro.

 

Já estava um pouco cansado e comecei então a notar que este Caminho era muito mais comprido do que esperava (assim são também os ideais na Vida: começava a aprender estas coisas). As Montanhas, essas, não estavam assim tão perto. E o Sol, o Irmão Sol começava a apertar. O dia estava muito lindo, o céu azul, cheio de azul, pintado todo de azul. Só uma mancha de azul total.

 

(Um dia observei a Lua com um telescópio. Estava toda ela rodeada de “aura azul”. Aura azul = Vida).

 

 De repente vi, na estrada, uma enorme Serpente, supostamente esborrachada, numa parte, por algum carro, talvez, porque estava metida dentro da Estrada. Possivelmente, teria saído do meio da Natureza e, ao tentar atravessar a estrada, foi logo esmagada numa parte do corpo. Triste Destino!

 

(Tecnologia vs. Natureza).

 

Estava do lado por onde Eu teria de passar, uns metros mais adiante. Mas não me atrevi a passar perto dela.

 

Se me desviava uns bons metros, seria perigoso, porque poderia vir um carro e levar-me por diante. E se estivesse viva, ou simplesmente ferida? Talvez pudesse atacar-me! E eu não tinha experiência de Serpentes! Não devia arriscar-me. Por outro lado, já estava cansado de andar. Decidi então parar e regressar. E regressei mesmo.

 

(Serpente = O nosso ego).

 

Para a primeira vez, não era nada mau. Já tinha respirado o Ar da Liberdade!

 

Lembro-me que tomei uns bons banhos para os Pés, pois estavam com bolhas.

 

Tinha caminhado, caminhado, caminhado.

 

Nunca cheguei até a Montanha.

(Meta? A Montanha?)

 

Chegaria alguns anos mais tarde. E em Miraflores de la Sierra seguiria depois, um dia também, caminho para a Cartuja de Miraflores (coincidência de nomes?).

 

E, muitos anos depois, acabaria mesmo por ir para a Índia, na procura espiritual.

 

Não cheguei até a Montanha.

 

Nunca cheguei até a Montanha.

 

(A Via da Libertação é longa! E no entanto está aqui mesmo, dentro de nós, ao nosso lado!).

 

Mas foi o começo do Caminho da minha Liberdade, para “onde” “eu” queria ir.

 

Às vezes, não se pode chegar logo, logo.

 

O importante é começar a caminhar.

 

Algum dia chega-se mesmo.

 

(Chega-se?)

 

Ainda que seja através da Irmã Morte, noutro plano da Realidade.

 

(Qual é a minha Realidade?).

 

E só se “chega” mesmo

Quando não há “eu” que chegue,

Nem lugar “onde”chegar.

 

 

 

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17.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

7. NAQUELA CAPELA LÁ DO NORTE

 

Aconteceu naquela capelinha lá do Norte, Vilharigues. Imprevisto. Como sempre, quando Tu actuas. O gozo interno, o Júbilo sem palavras. Por nada. Grátis! Aconteceu. E os votos, pernas e braços dos agradecid@s (ou pedintes), lá no fundo, chamando-me a Atenção.

 

Parecia-me muito grande essa capela. Hoje vejo que era muito pequena. Mas eu tinha os meus 6 anitos, mais ou menos...

 

De pequeno, tudo parece grande. Depois é que se vê as verdadeiras dimensões das coisas. Como é relativa a nossa percepção!

 

A minha avô e a minha madrinha levavam-me. Mas nunca souberam de nada. Nunca notaram nada. O assunto era Interior. As consequências eram sociais. Essas, sim, viram-se! Mas não se compreenderam.

 

Nada que contar. Nada visto. Só o gozo interior. Tão grande que ficou a “promessa”: “Isto não pode ficar assim! Algum dia dedicar-me-ei ao Teu serviço!”.

 

(Hoje sou o “Prabhu Das”, o “Servo do Senhor”).

 

E assim foi.

 

Tudo “começou” naquela capela lá do Norte. Lá, em Vilharigues. Ninguém soube. Mas viram as minhas mudanças. Que pouco sabemos do interior das pessoas!

 

Naquela capela começámos a viver.

 

Começámos a ser Holistas... sem o saber!!!!

 

Só Tu sabes, melhor do que ninguém, melhor do que “eu” próprio, o que aconteceu naquela Capela, lá do Norte.

 

 

 

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18.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8. LÁ, EM MIRAFLORES

 

Aconteceu naquele pequeno povoado da Serra de Madrid. Em Miraflores de la Sierra. E, para mais data, a 8 de Julho de 1973. (Pouco depois haveria o golpe do Chile, a 11 de Setembro, mas isso não interessa agora para a minha história: mas, como tudo está inter-conectado, com o tempo isto viria a interessar-me mesmo a sério).

 

Lá foi a minha Conversão.

 

Mas, a quem interessa isto?

 

Conversão ao Cristianismo de Jesus, de maneira existencial. Ser religioso. Época franquista. Mas as experiências vão por dentro. Decidido. Entrar na Igreja Católica. Agora, sim. Por convicção, não por “lei sociológica” (isto já não é franquismo; nem salazarismo).

 

O Compromisso para uma vida. E feliz, muito feliz. O fim de anos de Desespero, Solidão e Procura sem fim. O Encontro.

 

A mudança aconteceu em Madrid. Lá para a Primavera, lá para Abril, quando a temperatura começa a ser outra. A temperatura interior também mudou. Começar a orar. Simples. Sem estruturas. Franciscano espontâneo. Weltanschauung franciscana, com sabedoria dominicana. Francisdominicana. Uma só. Como queriam os Fundadores, Francisco e Domingos, Domingo e Francesco.

 

Abrir os braços para o Mundo, como Francesco, num imenso abraço. (Como vi depois, um pouco mais tarde, no Irmão Sol, Irmã Lua, o excelente filme do Zefirelli: o Francisco hippie, aquele hippie que queria ter sido eu e só o fui interiormente...).

 

Concluiu em Miraflores.

 

Melhor, começou.

 

“Comencemos, hermanos, porque hasta ahora poco o nada hemos hecho” (Francesco).

 

Um Novo Dia para mim... (com algumas sombras). Alegria. Primavera mendicante. Esperança. Fraternidade. Juventude.

 

Começava a Vida com Sentido.

 

Re-nascia.

 

 

 

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18.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9. DEPOIS DE FALAR SOBRE A MORTE...

 

Depois de falar sobre a Morte com a Irmã Margarita, ela que estava morrendo, senti “@s anj@s” na minha vida. Com naturalidade. Sem Medo. Mas com excitação... Em Manágua. Subindo para o Parque de Las Piedrecitas. Vindo de Batahola. Frente ao Psiquiátrico (!) (ironia?). Aí senti que “algo” ia acontecer...

 

Só senti. Não vi nada. Mas qualquer coisa me dizia que uma imensa quantidade de “seres trascendentes” estavam à minha volta, e que se iam manifestar... Sentia, sentia.

 

(Assim é na vida. Sentimos coisas que não poderemos nunca demonstrar matemática ou empiricamente. Mas vivemos isso! E aí fica tudo. Sem demonstração. A vida mostra-se, não se demonstra).

 

Sentia-me conectado com um Cosmos maior, onde havia “seres transcendentes”, mais além deste Mundo fenoménico. Mas em conexão com ele. Um só. Dois níveis de Realidade. Ou mais. União total.

 

Tudo tranquilo. Tudo perfeito. Tudo em Harmonia. Sem problemas. Todo o Cosmos tinha Sentido. E Vida. Vida Integral. Tudo vibrava. Tudo estava vivo. Não havia Morte.

 

Eu era também uma “parte” desse Cosmos. Ou melhor, eu era esse Cosmos. Sem problemas. Tudo normal. Tudo encaixava.

 

E foi a última vez que falei e vi a Irmã Margarita.

 

Morreu pouco depois.

 

Tranquila, sem Medo da Morte, feliz (na opção radical pel@s pobres).

 

Disse que ia tentar, onde quer que estivesse, comunicar connosco, se pudesse...

 

 

 

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24.08.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10. OS SANTOS QUE HABITAM O MEU QUARTO DA CASA DA MINHA MÃE

 

Tenho muitos santos no meu quarto da casa da minha mãe, lá em Lisboa. Lá estão, em posters ou em íconos. Mesmo em estátuas. São símbolos. De uma Vida Alternativa (Alternativesleben).

 

São mártires da Justiça, especialmente da América Latina e das Caraíbas, subcontinente que, como é sabido em todo o Mundo, deu montes de mártires cristãos nas décadas passadas. Mártires do Neoliberalismo. Mártires das nossas mentes perversas.

 

Há também Budas. Um Buda gordo, um Buda chinês, que manifesta a Felicidade da Vida. E um Buda índio, clássico, magro, sereno. Procuradores de mundos infinitos no Aqui e Agora. Mundos sem Nome, mas de Beleza Total. O Mundo da Transcendência na Imanência. Sem escapar. Um sorriso nos lábios. Menos sangue.

 

Há também belas Virgens, que mostram o Sim à Vida e a Aposta por um Deus das e dos Pobres. O Deus dos/das de Baixo, um Deus alternativo à Des-Ordem Estabelecida. O Deus da História, da Outra História que não conta a História Oficial (quem a conta?). Não um deus dos Templos e do Culto. O Culto que Este Outro Deus deseja é o coração limpo de egocentrismo, inveja, Poder e êxito. O Culto da Vida é um Culto Alternativo. Só o descobre quem o vive.

 

Tenho também livros. Livros de Uma Outra Espiritualidade, diferente da Dominante. Livros que atacam o Sistema, porque mostram as suas incoerências. São mais perigosos que bombas. Mas não querem matar ninguém. Só o nosso ego. Individual ou colectivo.

 

Pois é, há muitos santos no meu quarto da casa da minha mãe.

 

(Nenhuma santa, criticariam as feministas crentes...Vamos ver se isso é certo... Mas há! No Poster do Monsenhor Romero veêm-se várias mártires de todas as lutas populares da ALC: Febe Elizabeth Velásquez, Silvia Arriola, Mélida Anaya Montes, Madelaine Lagadec, Idalia López Salazar, Marianella García Villas, Laura López, Ana Cecilia Rivera Rodríguez, Maura Clark, Celina Ramos, Xenaida Marroquín, Tania Valentina Parada Guirola, Rufina Guevara, Norma Virginia, Arlen Xiu.

 

Lutas pacíficas, mas firmes. A Causa do Reino e da sua Justiça).

 

Muitos sant@s mesmo,

 

Naquele meu quarto.

 

O único que sobra lá sou eu!

 

 

 

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28.08.06

(santo agostinho)

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11. IOGA

 

Muito Obrigado, Deus da Vida, pelo Ioga, pela União Contigo, com Ele/Ela/Isso-Aquilo! Obrigado por não esquecer o Corpo no Hatha Ioga. (‘Ioga’=União. Unidade na Pluralidade, como o lema da Índia). Muito Obrigado!

 

(Começar a fazer Ioga: o início de uma Alternatividade que com os anos se desenvolveu, mais e mais. Ai! aquele livrinho barato: não tinha dinheiro para comprar o mais caro deles, fi-lo depois, muitos anos após, muito menos para poder pagar umas simples aulas de Ioga! Foi o começo de tanta coisa. E de tanta ilusão, que me deu Força. Pobre... “mas” lutador).

 

Sozinho,

No quarto,

As primeiras lições.

Com o livro ao lado.

E muita liberdade interior.

Philosophy of the Sixties.

E continuar depois com a meditação,

Ao final,

Que é o começo

De um outro final.

 

(Não durou muito o Hatha Ioga. Sim a Meditação. Simplesmente, transformou-se. Disciplina: todos os dias, sentar-se. Unido depois, um ano mais tarde, à reflexão filosófica pessoal. No verão, depois do COU. Começar a ser eu próprio. Filosofia que surgiu a partir do Esoterismo, não para ser Doutor ou Académico. Mas para uma Nova Vida. Sem saber! Sem Saber!).

 

Ioga com bastante dor posterior, Ioga que conduziu a minha vida por rumos insuspeitos (e, anteriormente, até repudiados!).

 

É,

as aventuras não são só de Belezas.

 

Ioga,

Fonte de Espiritualidade.

 

(Valeu a pena. Começar a Ser. Aceitar a minha própria Existência como Problema e Tarefa).

 

Ioga, grande benção de Deus para a Humanidade. Sem criador conhecido. Muit@s colaboraram. Esforço colectivo. Anónimo. Disciplinado. Muito exigente. Limpeza. Paz. Alegria. Pureza.

 

E o Sol, Surya, que nos ilumina, sem querer aproveitar-nos dele.

 

Simplesmente,

 

Suryanamaskar.

 

E a Lua, que nos banha na sua Sabedoria, sem nada pedir. Gratuidade. Doação. O Caminho do Espírito.

 

Simplesmente,

 

Chandanamaskar.

 

E os dois juntos (Sol/Lua, Surya/Chand): Um só.

 

Nada aonde chegar. Já estamos lá! Só falta descobri-lo. Ainda que toda uma vida (há mais do que uma?) seja necessário para isso!

 

Obrigado pelo Ioga-União!

 

Dhanyavād.

 

Namastē.

 

Ishwar.

 

 

 

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06.09.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12. ZAZEN

 

Continuar. As pernas doloridas, mas continuar! Sempre continuar. Sem fim. Até o Satori. Mas já estamos iluminad@s! Só que precisamos de o sentir.

 

Continuar. As costas rectas, de novo. E parecia que já estavam direitas! Assim é a vida. Temos uma falsa imagem de nós própri@s. É preciso estar/ser conscientes disto.

 

Continuar. Ainda faltam dez minutos. Que eternidade! Hoje este Zazen-kai foi demais. Faz muito calor no dojo, neste Verão. Ainda por cima vestido com a túnica zen... Mais um obstáculo a vencer. Sempre aparece um obstáculo mais. Como os moinhos de vento do D. Quixote.

 

Continuar. O director da sessão levanta-se e passa com o kyosaku, mas não acho necessário ser golpeado nas costas. Aguentar até o final. A Mente continua dispersa, mas não tanto, porque está consciente da dor. Ao princípio era excelente. Até parecia que a Mente estava mais livre... Mas agora...

 

Continuar. Libertar-se de pensamentos, emoções, imagens... Mente-Corpo, caídos. Lembro-me de tanta coisa! Mas também volto a começar, sempre re-começar. Assim é a vida interior. Sempre recomeçar. E parece que não se vai para a frente, mas para trás. Sempre “escarafunchar” no já dito ou feito, ou pensado, ou imaginado... e ir para trás! Não parece que se avança, mas que se retrocede. Ao contrário.

 

Continuar. Retroceder, retroceder, retroceder. Aprender a deconstruir, valentemente, toda a Própria Vida, até que não fique nada mais para Queimar. Esse é o verdadeiro Começo, o Ponto de Partida.

 

Continuar. A Vida é um Paradoxo. Nós também. Somos ou não somos?

 

Por fim, soam os três gongs. Libertação! Uma Luta mais, uma luta menos. Ainda não foi desta a Satori. Quando será?

 

Quando os dois pássaros da fábula terminem de secar o Oceano com o seu corpo e asas molhados, para que o Oceano devolva o cadáver do seu filho afogado.

 

Então talvez aí comece o que não tem começo, para acabar onde sempre começou!

 

Continuar!

 

 

 

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07.09.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13. NAQUELE ZAZEN-KAI

(“O RISO”)

 

Naquele dia de zazen, dirigido por Napoleón Chow, em San Marcos, lá na Nicarágua, houve riso. O riso do zazen. O riso da Meditação. O riso do Espírito. Difícil de descrever. Holismo pessoal.

 

Foi na segunda “sentada”. De repente, pareceu-me que os cães que ladravam lá em baixo, no jardim, estavam a comunicar-se comigo. Que estranho! Mas era tudo tão natural, tudo tão espontâneo! Como se quisessem Comunicar algo, também entre eles. E para mim. Não me sentia estranho a eles. Eu era eles, eles eram eu, como se formássemos parte do mesmo Jogo (Lila divino). E parecia que existiam muitos mais animais. E que todos estavam à espreita, todos vivos e expectantes. Todos interconectados. Todos, tudo, um. Tudo vivo. Tudo Vida.

 

Depois pareceu-me, “senti”, que nada era neutro, que tudo estava como preparado para manifestar-se em breve. A noção de que algo ia acontecer. Logo, logo. As paredes pareciam curvas (mas eu não olhava para elas, era como se soubesse sem ver, como se o “sentisse”). Tudo parecia curvo, nada estático. Tudo vivo. Sim, essa era a impressão fundamental. Tudo parecia estar vivo, dinámico. Sorrindo. Como se, de repente, eu formasse também parte deste Universo mágico que mais parecia um Cosmos de Desenhos Animados (onde as paredes se curvam e falam e ouvem e se riem) do que outra coisa, onde tudo estava vivo. E feliz. Com sentido de humor. Era o Espírito.

 

Como se tudo me falasse e entrasse em Jogo comigo. E tudo estava bem. Tudo tinha sentido. Como se de repente tivesse penetrado (por fim!) na própria Realidade, onde sempre estive, mas onde nunca “sentira” nada. Tudo tão natural. Então houve vontade de rir, muita vontade mesmo. Era uma grande felicidade! E, sobretudo, essa sensação que alguma coisa ia manifestar-se. Alguma coisa grande... Mas não aconteceu nada. Só esta sensação simples, única, natural, de Estar-com-todas-as-coisas, como se tudo estivesse vivo.

 

E o riso reprimido, quase a ponto de saltar. Seria um escândalo, no meio do zazen, com toda a outra gente lá... Mas sentia-me tão bem! Tão naturalmente bem.

 

 

Como se tudo estivesse vivo.

 

Mas não!

 

Tudo está realmente vivo!

 

Só nós “vivemos” como mort@s.

 

Adormecid@s!

 

Definitivamente, naquele dia, naquele zazen, acordei... um pouco...

 

Mas quem é esse “eu” que acordou um pouco (ko’an)?

 

 

 

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11.09.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

14. LIBERDADE

(NUMA PRAIA NUDISTA)

 

 Nesta Praia Nudista, o mais importante é libertar-se.

 

Libertar-se dos convencionalismos.

 

O mais importante não são os corpos nus, ali um pouco mais à frente de mim, mas olhar o Céu, deitado, olhar o Azul Infinito, onde os Pássaros (Gaivotas?) esvoaçam, quase sem mexer as asas, aproveitando a dinâmica do ar, excelentes engenheiros práticos, empíricos.

 

Nesta Praia Nudista, com argila e mar forte, água muito salgada e areia selvagem, o mais importante é experimentar a Liberdade que cada dia nos é negada na Cidade, a opressão dos Corpos obedecendo a Convenções (fabricadas por quem? Para quê?).

 

Está muito calor a estas horas do dia.

 

Mas as Gaivotas continuam o seu Voo Delta, divertindo-se, sendo Espírito, rindo e vivendo Liberdade por todos os poros.

 

 

 

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13.09.06

nagpur

14.12.06

 

 

 

 

 

 

 

15.FILO-CINISMO

(VIVA DIÓGENES!)

 

Qualidade de Vida sem qualquer posse. Rir-se da loucura in-humana. Procurar um Homem. Desprezar o Poder. Comer pouco, mas em Liberdade Total. Deitar fora o copo: para beber, bastam as duas mãos. Viver no meio da Natureza, integrado nela. Viver à margem da Sociedade... sem Finalidade. Como Diógenes de Sínope, O Cínico.

 

Aprender a viver com muito pouco. Como uma espécie de Asceta com muito Espírito, com muito Sentido de Humor. Provocar para fazer pensar. Para não a-dor-mecer. Neo-cinismo nos nossos dias.

 

Visitar mega-shoppings center sem gastar um só tostão, rindo-se da Vaidade humana. Da nossa Ignorância. Dos Desejos que nos dominam. Programados para nos dominar. Ler o jornal grátis, naquele bar conhecido. Ou então, receber o jornal grátis que nos dão no Metro. Receber grátis um livro naquela interessante conferência de algum inspirado intelectual que vem Transformar o Mundo. Comer comida vegetariana naquele lugar conhecido (especialmente fruta!). E water therapy, muita water therapy!

 

E rir-se muito, muito, muito mesmo. Laughter therapy!

 

Viver intensamente o Momento Presente, o Presente Eterno, sem Pensamentos. Só consciente das Percepções, deixando que surja O-Que-Tem-Que-Surgir.

 

Nudismo. Ecologismo. Pacifismo não-violento. Feminismo. Indigenismo. Anarquismo. Tudo na Prática, a melhor das Teorías. E desconfiar das Abstracções. Que secam, envenenam, enganam.

 

Viver a Maravilha de um Novo Dia, com uma Nova Mente.

 

E Agradecer ao Inominável uma Nova Oportunidade para Ser Nele.

 

 

 

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13.09.06

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16.TRATADO FILOSÓFICO DA VIDA ABORRECIDA

(A CAVERNA DE PLATÃO)

 

Há quem sinta que a Vida é uma Paixão Inútil num Mundo Adormecido. Aborrecer-se. Mais do Mesmo. Voltar a repetir a Rotina de sempre. Boring.

 

Estudar o de Sempre. Educar-me ou “amestrar-me”? Como aos ursos. Como aos elefantes. Repetir as mesmas coisas continuamente. Obedecer. Disciplina externa, artificial. Estudar uma carreira de Êxito... para o Sistema! Formar-me. Casar. Ter filh@s. Reproduzir a Espécie. Fazer a mesma papelada de sempre. Obedecer.

 

O mesmo gesto outra vez. De novo voltar para casa pelo mesmo caminho. Encontrar os mesmos rostos anónimos na rua. Chegar de novo a casa. O mesmo escritório de há décadas. O mesmo chefe. Quase todos os mesmos companheir@s. Obedecer.

 

As dificuldades para chegar ao fim do mês. Sempre o Consumismo. Outra vez Votar pelos mesmos de sempre, com outras caras, com outras promessas. Mas os mesmos de sempre. O Engano de Sempre. Nada muda! Obedecer.

 

Querer Mudar e Sempre fazer o Mesmo. Nem nas férias poder ser livres. Obedecer às modas das praias deste ano. Vestir-se à moda. Pensar à moda o que @s outr@s pensam, para não ser marginalizad@s. Calar o que destoa. Obedecer.

 

O Diabo é esta mesma vida repetida.

Boring, boring, boring!

Obedecer.

A quem?

 

Hipotecar quase toda a vida laboral para comprar uma Casa. Comprar todos os (In)seguros possíveis. Comprar A Prazos. Sentir A Prazos. Pensar A Prazos. Morrer A Prazos. Pagar o caixão e a Campa... A Prazos. Flores em cima. Relvado. Árvores.

 

E,

Mesmo,

Curiosamente,

Os Passarinhos sobre as Árvores,

Piando,

Cantando,

Alegres

E

Livres.

 

 

 

lisboa

20.09.06

nagpur

24.12.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

APRESENTAÇÃO................................... 4

 

I. POESÍA..................................... 10

 

1. Estar...................................... 11

 

2. O Universo Mora no Bairro da Minha Mãe........................................... 13

 

3. Ser (Pássaro).............................. 20

 

4. O Mundo está (L)O(u)co (Ou das Tremendas Semelhanças com Lao-Tse)...................... 25

 

5. Eterno Caminhante.......................... 28

 

6. Cultura Yin-Yang........................... 31

 

7. Emigrante.................................. 34

 

8. Esotérico/Exotérico........................ 37

 

9. Nirvana e Samsara.......................... 39

 

10. Mística................................... 41

 

11. Silêncio.................................. 44

 

12. Acção..................................... 46

 

13. Morte..................................... 49

 

14. Tri-unidade............................... 51

 

15. O Vegetariano............................. 53

 

16. O Caleidoscópio........................... 55

 

APÊNDICE: DOS CEM NOMES DIVINOS............... 57

 

II. PROSA POÉTICA............................. 61

 

1. Nada (Nihil)/Tudo.......................... 62

 

2. Trilogia Temporal (Passado-Presente-Futuro) 64

 

3. Iluminação................................. 67

 

4. Sol-Lua.................................... 69

 

5. Mistério................................... 71

 

6. A Montanha (Ou a História da Serpente Esmagada)..................................... 73

 

7. Naquela Capela lá do Norte................. 77

 

8. Lá, em Miraflores.......................... 79

 

9. Depois de falar sobre a Morte.............. 81

 

10. Os Santos que habitam o meu quarto da casa da minha mãe..................................... 83

 

11. Ioga...................................... 85

 

12. Zazen..................................... 88

     

13. Naquele Zazen-Kai ( “O Riso”)............. 90

     

14. Liberdade (Numa Praia Nudista)............ 92

     

15. Filo-Cinismo (Viva Diógenes!)............. 93

 

16. Tratado Filosófico da Vida Aborrecida (A Caverna de Platão)............................ 95

              

ÍNDICE........................................ 97

      

      

 

 

 

 

 

 

 

 

“The beginning of freedom is the realization

That you are not “the thinker”.

The moment you start watching the thinker,

A high level of consciousness becomes activated.

You then begin to realize that there ist a vast realm

Of intelligence beyond thought, that thought is only a

Tiny aspect of that intelligence.

You also realize that all the things that truly matter-

Beauty, love, creativity, joy, inner peace-

Arise from beyond the mind.

 

You begin to awaken”[8].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESPAÇO PARA ANOTAÇÕES PESSOAIS

 

(PENSAR LIVREMENTE...)

 

 

 

 

 

 



[1] ERNESTO CARDENAL

[2] BEDE GRIFFITHS, The universal Christ, Darton, Longman and Todd Ltd., London, 1990, p. 28.

[3] Cfr. Ibid., p. 48.

[4] Cfr. Ibid , p. 21.

[5] NOTA: Este texto pretende ser a continuação lógica da minha tese de doutoramento em filosofia sobre o Holismo (Filosofía de la Vivencia Holística). Ambos textos complementar-se-iam: aquele seria a fundamentação teórica do que aquí se expressa e este seria a realização artística do que ali foi investigado.

[6] OBSERVAÇÃO: Este texto foi escrito entre Portugal e a Índia. Em Portugal, foi a primeira redacção e a última correcção, enquanto na Índia (e no Nepal) foram as restantes correcções. Cheguei à Índia, a 4 de Outubro de 2006, festa do sempre admirado Irmão Francisco. Agradeço muito ao meu amigo, o Padre Mário de Oliveira, pela sua cuidadosa correcção do meu texto em português, ainda que, obviamente, o resultado final é responsabilidade minha e só minha.

[7] ALAN DE LILLE, Regulae theologiae, 7.

[8] ECKHART TOLLE, Practising the Power of Now, Yoghi Impressions, Mumbai, 2002, p.5.